Um ano difícil

A única vez em que o anuário AutoMotor teve um título impresso na capa foi justamente na primeira edição, lançada em 1993. O livro, idealizado pelo jornalista Reginaldo Leme, retratava a temporada 1992, uma das mais complicadas para os pilotos brasileiros na história recente do esporte a motor após praticamente duas décadas de glórias. A frase ‘um ano difícil’, ali escrita, englobava especialmente as desventuras de Ayrton Senna em sua pior fase na equipe McLaren e também o acidente de Nelson Piquet em Indianápolis, que quase custou os pés do tricampeão mundial.

Aquele anuário foi o primeiro de uma coleção que, desde então, só cresceu. Até a 19ª edição, lançada em fevereiro de 2011, tive não apenas a honra de adquirir todos os números, ano após ano, como de também fazer parte desta história. Uma história que, para mim, começou a ganhar novos rumos, pessoais e profissionais, no começo de 2005. Ao entrar pela primeira vez no escritório dos irmãos Leme, conheci algumas figuras que me marcariam para sempre dali em diante.

Uma das primeiras pessoas que conheci naquele dia, ainda na sala de espera, chegou do almoço extremamente sorridente e aproveitou que eu folheava o recém-lançado AutoMotor #13 para retirá-lo sutilmente de minhas mãos e então apontar o próprio rosto numa foto localizada na orelha do livro. Com os olhos brilhando, orgulhoso do próprio trabalho e dono de uma alegria contagiante, o cara manteve o dedo esticado em direção à foto e se apresentou:

– Luiz, muito prazer!

Aquele jeito bem peculiar de se apresentar a um estranho, usando a foto da equipe que produzia o livro, ainda nos renderia muitas gargalhadas nas inúmeras vezes em que contamos conjuntamente esta história a terceiros. A empatia com Luiz Vicente foi imediata, mas o contato frequente só viria algum tempo depois, quando me mudei do Rio de Janeiro para São Paulo. Passamos a correr juntos de kart, demos muitas risadas nas hamburguerias após as corridas, e hoje posso dizer sem medo de errar: Luiz Vicente foi uma das principais amizades que fiz nestes quatro anos morando na cidade. Não apenas isso: um dos caras mais corretos e competentes com quem trabalhei, também.

Luiz Vicente ao lado de Rubens Barrichello em 2010, durante o evento de kart promovido pelo piloto

Algumas pessoas sabem, cá entre nós, que sou um diretor de arte frustrado. Ainda dando os primeiros passos no mercado de comunicação, antes de completar 20 anos de idade, entendi que minha praia era escrever, e que deveria fazer isso se quisesse ganhar a vida com alguma chance de dar certo. Mesmo assim, nunca me afastei totalmente do universo do design. Luiz, o sujeito responsável desde 2002 por dar ao AutoMotor a cara, o formato, o acabamento gráfico e quase tudo mais que não fosse texto, sempre foi de uma paciência ímpar com minha insistente ‘síndrome de abajur’ – como chamávamos meu simples ato de ficar colado à mesa, observando seu trabalho. E mesmo quando o tal abajur se metia a palpitar, seu alto astral permanecia o mesmo, cheio de boa vontade com as ideias dos outros.

Nos três últimos anos, quando me tornei colaborador regular do anuário, minhas visitas ao escritório ficaram mais frequentes. E, a cada visita, os papos também fluíam com uma facilidade impressionante. Não era raro terminarmos o expediente no segundo andar, conversando com o chefe, num ambiente de criação coletiva onde surgiam ideias de capas, conceitos visuais, entre outros insights interessantes ligados ao livro ou a diferentes projetos tocados sob aquele teto. Na hora de irmos embora, enquanto todos entravam em seus carros, Luiz mantinha o ritual: pegava sua bicicleta e dali seguia pedalando até em casa.

Na última visita que fiz ao escritório, na quarta-feira, ele brincou que eu merecia uma chibatada, porque a entrega de um texto meu estava atrasada em um dia. Naquele mesmo dia, além das pendências profissionais, conversamos sobre diversos assuntos, para não perder o costume. Um deles foi o ano trágico vivido pelo esporte a motor no Brasil e no mundo, tema que havia me motivado a escrever uma matéria publicada duas semanas antes no site Globoesporte.com. Lembro que disse a ele o quanto desejava que a cota de perdas deste amargo 2011 já tivesse chegado ao fim.

Luiz no kart 14, eu no 29, numa das últimas disputas que tivemos na pista, no Barrichello Kart Day 2011

Na noite de domingo, eu estava de folga no Rio de Janeiro quando um telefonema me deixou completamente arrasado. Naquele instante eu soube que nosso amigo Luiz Vicente, o homem de caráter exemplar e de sorriso fácil, havia sofrido um acidente durante a tarde enquanto guiava sua bicicleta numa das ciclofaixas de São Paulo. E que, de uma hora para outra, a cidade havia perdido um de seus mais incríveis cidadãos. Parecia impossível acreditar, e continua sendo.

A dor de perder um amigo próximo, por si só, já é grande. Visto em perspectiva, com tudo o que o Luiz sempre significou para a comunidade dos jornalistas especializados em automobilismo, o impacto fica ainda maior. Um profissional que era um dos pilares do excelente ambiente interno da editora, e cuja metodologia de trabalho tornou-se a espinha dorsal de seu mais importante produto.

Como todo time que perde um de seus principais jogadores, a equipe do AutoMotor sabe que o trabalho, a partir de agora, será ainda mais intenso sem o nosso grande amigo. Que estava preparando, diga-se, uma apresentação impecável para a comemorativa 20ª edição do anuário. Um trabalho de gala que só alguém como ele poderia preparar. Mas que será continuado, evidentemente, com o empenho, o esforço e a dedicação de quem sabe que ele jamais nos permitiria parar.

Após dois meses longe do blog, por ter tanta coisa para resolver na vida, encontrei justamente nesta página um espaço para desabafar e lembrar a todos nós que é preciso celebrar e aproveitar exatamente ela: a vida. De uma maneira, é bom ressaltar, que o Luiz sempre aproveitou, no maior pique e com o maior astral. E como ironia pouca é bobagem, qual não foi a minha surpresa ao ver que o último post que havia sido publicado por aqui foi justamente uma contribuição dele

Pois é, Luiz, o mundo tem dessas coisas que a gente não consegue explicar, como esta tua partida tão prematura. Continue pedalando com seu sorriso aberto por aí, meu camarada. Só nos dê um tempinho para reencontrar esta alegria, porque esses dias sem você não têm sido fáceis. Me desculpe, meu amigo, mas não dá pra segurar. Este 2011 está sendo, como você bem sabe, um ano difícil.

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5 comentários

  1. Grun (era assim que o Luiz o chamava, correto?)

    Obrigado demais por esse texto lindo sobre essa pessoa maravilhosa que foi o Luiz Vicente, meu irmão querido que partiu cedo demais.

    Em nome da família eu agradeço e desejo que essas boas lembranças que todos nós temos dele sejam sempre muito vivas, e nos tragam conforto e força para continuar.

    Um grande abraço.
    Ricardo

  2. Grun,

    Eh durissimo estar longe dos amigos numa hora dessas. Nunca imaginei passar por isto. Chorei muito e nao parece suficiente. Volto na sexta-feira e tenho certeza de que vou desabar quando encontrar a primeira pessoa de nosso circulo.

    Abracos, camarada. (LAP)

  3. Vicente e Ricardo, meus amigos de infância da Vila Guarani e mais precisamente da Barra do Parateca… apesar do tempo e da distância fiquei muito triste e chocado com essa tragédia e que Deus dê muita força para você Ricardo e a toda sua família e que você Vicente esteja na paz e com muita luz…

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