Livros velozes: Ayrton Senna e a Mídia Esportiva

Se você gosta de livros e é fã de esporte a motor, certamente já leu alguma obra sobre Ayrton Senna. Desde que despontou na Fórmula 1 como um dos principais pilotos do grid, no fim dos anos oitenta, o brasileiro foi tema de dezenas de biografias em todo o mundo e tornou-se presença obrigatória em qualquer livro que tenha a categoria como fio condutor. Um fenômeno explicado não apenas pelas vitórias nas pistas, mas principalmente pelo carisma do tricampeão mundial. Um ídolo que, depois de sua morte, em 1994, acabou elevado por muitos à condição de mito.

No meio de tudo isso, a imprensa – geral e especializada – teve um papel fundamental. Não apenas contribuindo para a construção e consolidação desta imagem, mas também pegando carona em tamanha popularidade. Os desdobramentos desta relação, como o crescimento do espaço dedicado ao automobilismo na mídia, são abordados com riqueza de detalhes em Ayrton Senna e a Mídia Esportiva, primeiro livro do jornalista Rodrigo França. Um trabalho baseado em muita pesquisa nos acervos de grandes jornais e redes de televisão e em depoimentos de veteranos das coberturas do período de ouro do Brasil na F-1, lançado no fim de 2010 pela editora AutoMotor. A mesma que publica desde 1993 o mais completo anuário em língua portuguesa do mundo.

Contando com prefácio de Reginaldo Leme e fotos de Miguel Costa Jr., dois craques do jornalismo esportivo especializado em automobilismo, o autor traça uma análise sobre as mudanças na cobertura esportiva no Brasil, assim como as vantagens e desvantagens de haver um ídolo inserido neste contexto – o que, por vezes, se traduz numa incômoda necessidade. Neste cenário, ninguém melhor que um expoente como Ayrton Senna para exemplificar a transformação gradual do meio jornalístico e ajudar a desvendar o perfil do público formado a partir da presença de ícones que transcendem o universo esportivo. Gente que nem sempre se fideliza com o esporte na ausência de alguém para torcer, fazendo com que a imprensa precise se reinventar em busca de novas abordagens.

Num formato prático, com capítulos curtos e texto repleto de referências, Ayrton Senna e a Mídia Esportiva é essencial para estudantes de jornalismo, útil para profissionais da área e, de quebra, um presente aos muitos fãs do piloto. Que ajudou, mesmo já ausente das pistas, a sedimentar o automobilismo como o segundo esporte na preferência do brasileiro, até durante os longos jejuns nas pistas internacionais.

Ficha técnica
Título: Ayrton Senna e a Mídia Esportiva
Autor: Rodrigo França
Editora: AutoMotor
Páginas: 180
Lançamento: dezembro de 2010
Preço: R$ 29,90

Entrevista com o autor
Concedida a Alexander Grünwald em janeiro de 2011

Num país com tantos ídolos no campo esportivo, o que motivou a escolha de Ayrton Senna como ícone da relação dos atletas com a imprensa?
Além de ser um grande fã do automobilismo e ser um jornalista especializado nesta área, acredito que um ídolo como o Ayrton Senna é o exemplo perfeito desta relação de interdependência entre um esportista de elite mundial e a imprensa. Também foi importante o fato de que Senna é herói de um esporte diferente do futebol, cuja popularidade no Brasil tem dimensões gigantescas. Justamente por seu um esporte do que a imprensa costuma chamar de “amador”, o fenômeno Senna foi capaz de produzir uma relação tão intensa que mesmo hoje com os craques da Selação Brasileira de Futebol não vemos o mesmo tipo de cobertura.

O livro se baseia num trabalho acadêmico que esmiuçou a cobertura esportiva dos anos de ouro do automobilismo brasileiro e também do período pós Senna, onde a perda de espaço foi inevitável. Qual aspecto te chamou mais atenção em cada uma destas fases?
Fiquei bastante impressionado com o relato de colegas jornalistas sobre a fase de ouro do Senna. A incrível busca pela notícia mesmo quando ela simplesmente não existia – como num desembarque do Senna nas férias dele, no Brasil, em que ele falava cinco minutos com a imprensa e aquilo rendia uma ou até duas páginas de jornal. Em relação à inevitável perda de espaço, eu mesmo senti isso na pele. Em 1997, quando fiz a cobertura de meu primeiro GP para o Jornal da Tarde, fui escalado para cobrir o Rubens Barrichello. Um foca (por mais que, naquela época, eu já fosse extremamente interessado pelo assunto) cobrindo o principal representante do Brasil na elite do esporte a motor. Isso seria impossível três anos antes. E é um exemplo de como a grande mídia já não estava tão a fim da F-1 – havia vários outros repórteres iniciantes naquela cobertura, não era algo do JT, era um comportamento geral mesmo.

Por ter iniciado sua carreira jornalística na segunda metade da década de noventa, você não viveu as conquistas de Senna na ótica de um profissional. Isso de certa forma ajudou na questão da imparcialidade e do distanciamento necessário a uma análise deste porte?
Com certeza. Acredito que este distanciamento foi necessário para uma análise fria do “antes e depois” – já que, como profissional, só vivi o depois. Ao mesmo tempo, como grande consumidor de notícia da época de ouro da F-1 no Brasil (nos anos 1980 e começo dos 1990), eu sabia exatamente como esta notícia chegava ao público. Quando entrevistei o Galvão Bueno e o Reginaldo Leme e eles citavam certa dificuldade de uma cobertura específica (como a luta contra o fuso horário ingrato das corridas decisivas do Japão), eu sabia do que se tratava porque eu estava lá do outro lado da tela ansioso pelas informações daquele GP de 1988, 89, 90, 91… Então, de certa forma, acredito que para o formato que adotei no livro, este misto de experiência de “antes” como leitor e “depois” como jornalista foi fundamental.

Os diversos depoimentos de jornalistas colhidos na fase de pesquisa revelaram alguns aspectos curiosos ou desconhecidos do grande público na relação do piloto com a imprensa?
Sim. Acredito que o mais curioso foi o caso do SBT, que não tinha os direitos de TV da F-1, mas chegava a mandar um repórter para os GPs (Roberto Cabrini) a fim de pegar histórias de bastidores ou entrevistas fora do circuito. Dá para imaginar a Record hoje levando uma equipe para Mônaco para falar com um piloto brasileiro fora do paddock? Este é um típico exemplo da era de ouro da cobertura do Senna.

Texto
Alexander Grünwald – About Grün

Todas as quintas o Fórmula Grün publica a seção Autoteca, analisando publicações dedicadas ou relacionadas ao esporte a motor, como selos, games, filmes e livros. Caso queira ter uma resenha publicada neste espaço, envie seu texto para alex@formulagrun.com.br, sem se esquecer de acrescentar a ficha técnica do material e a imagem para ilustrar o post. A ordem de publicação obedece a critérios editoriais, priorizando a qualidade dos textos e a relevância das obras.

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