Obrigado, Sir Paul!

Em abril de 1990 eu contava os dias para completar 14 anos, mas já era um frequentador de shows e festivais de rock. O ouvido lapidado desde a infância em centenas de serestas noite adentro na varanda da minha casa já havia conhecido alguns sucessos de grandes nomes da música. E quando veio o anúncio de que Paul McCartney faria shows no Brasil, não sosseguei enquanto não convenci algum familiar a me acompanhar (de preferência, pagando o ingresso…) àquele que prometia ser “o show da minha vida”. Para quem, como eu, ouvia o Álbum Branco e o Let it Be como se estivesse na década de sessenta, ver um Beatle de perto parecia um sonho. E foi.

A vontade era repetir a experiência de seis meses antes, quando curti os três dias do Hollywood Rock na pista, pulando feito um doido. Mas meu padrinho, a alma bondosa (e beatlemaníaca) que me levou ao estádio do Maracanã naquela noite chuvosa de outono, preferiu as arquibancadas. De início, achei uma opção chata, distante, mas a impressão começou a mudar junto com os primeiros acordes do show. Como chegamos um pouco tarde, estávamos quase de lado para o palco, o que de certa maneira deu uma visão diferente das coisas. Lá pelo meio do show, já ensopado de tanto pular e cantar, vi que não havia isolamento atrás do palco. Não tive dúvidas. Arrastei todo mundo e lá fomos nós, com a emoção à flor da pele, ver o Paul de um ângulo que ninguém via.

Hoje em dia, as áreas ao redor do palco são previamente isoladas, mas em 1990 foi possível tomar conta de vários degraus daquele estádio lotado e enxergar tudo literalmente de cima. Era como se eu estivesse pairando, gravitando a poucos metros da lenda. Via o cara correndo de um lado para o outro e podia perceber sua expressão facial quando ele olhava para os músicos que estavam ao redor. Com o telão bem à minha frente, dava para ver tudo com clareza, com o único e insignificante detalhe de que via a imagem invertida. Foi ali, “pairando”, que viajei em “Band on the Run”, explodi em “Live and Let Die” e chorei copiosamente em “Yesterday” e “Hey Jude”. Sim, eu vi a lenda. E vivi intensamente aquele momento.

Com todo o impacto que esta apresentação teve, pode-se dizer que Paul McCartney carimbou de vez meu desejo de continuar indo a shows, festivais e afins, para ver de perto os artistas que me faziam viajar através da música. Um caminho que me levou, sete anos depois, a trabalhar numa rádio e fazer o que parecia impossível aos 14 anos: viver aquele mundo de mais perto ainda. Como não precisava pagar para entrar nos shows, o período em que fiz parte da emissora foi absurdamente fértil neste aspecto. Não apenas pela quantidade inacreditável de espetáculos (muitos deles trabalhando, é verdade), mas também pelo naipe dos artistas que vi ao vivo.

Mesmo quando saí da rádio, aos 23, continuei um assíduo freqüentador de shows. E, como fã inveterado do Pearl Jam, torcia para que a minha banda predileta viesse enfim ao Brasil. Seria o auge do auge. A coroação de uma vida inteira em arquibancadas, pistas, grades e até em backstages, cantando a plenos pulmões cada música dos caras, de frente para eles, como eu havia sonhado tantas e tantas vezes.

Até que o Pearl Jam veio ao Brasil e, numa bobeira sem tamanho, fiquei sem ingresso. Estava atolado em trabalho, deixei para comprar no outro dia e aí veio o baque. A procura foi tanta que, ao chegar lá, já estavam esgotados. Mal pude acreditar que aquilo estava acontecendo.

É desnecessário dizer o quanto foi frustrante ficar de fora daquele que seria, este sim, “o show da minha vida”. Foi o momento em que aquele moleque de alma roqueira desprendeu-se do corpo adulto e passou a vagar em alguma dimensão paralela. E então vieram anos difíceis, em que nenhum mega show ou festival parecia mais ter graça. De uma hora para outra, o que era raro ficou comum. Pouco a pouco, dei as costas para tudo. Nenhum show fazia sentido depois de ter perdido o Pearl Jam.

Eis que o velho Paul resolveu voltar ao Brasil.

Ainda aturdido com a fase deprê, vivi uma certa indecisão por causa desta notícia. Encantado pelas lembranças de duas décadas atrás, cheguei a cogitar uma ida ao show da turnê “Up and Coming”, mas assustei com o preço dos ingressos. E dei a hipótese por encerrada quando acompanhei o noticiário via Internet, que indicava que eles haviam se esgotado em menos de uma hora. “Não faz mal”, pensei. “Já vi o Paul”. E fim de papo.

Até que o dia do show chegou e eu liguei a TV para assistir à lenda tocando ao vivo. De novo, na mesma cidade onde eu estava. De novo, esbanjando vigor e genialidade. De novo, interagindo maravilhosamente com o público. E eu ali, entre quatro paredes, lágrimas nos olhos, acompanhado da incômoda sensação de estar no lugar errado.

A mesma frustração da época do Pearl Jam me veio à tona. Mais tarde, os relatos de quem foi ao estádio do Morumbi só contribuíram para que a depressão se agravasse. Não me conformava por ter ficado tão distante. Não me conformava por sequer ter tentado comprar um ingresso. Não me conformava por ter renunciado ao direito de viver um momento daqueles, mesmo que no fim das contas ficasse mesmo do lado de fora do estádio. “Eu deveria ter tentado”, era tudo o que me passava pela cabeça. Foi pensando nisso que nem dormi, e foi pensando nisso que me deitei, já com os primeiros raios de sol na janela, querendo que o sono chegasse logo.

Pois bem. O sono não chegou, os pensamentos continuaram a mil, e não tive alternativa senão ligar o computador para escrever este texto. Para registrar meu agradecimento ao grande Paul, ao Sir Paul McCartney, que neste novembro de 2010 fez reacender minha vontade de ir a um show. Que trouxe de volta à minha alma aquele moleque de 14 anos que pulou, vibrou, viajou e se emocionou num Maracanã lotado. Um moleque que entendeu bem cedo que a vida sem música é como um céu sem cor. E que se imaginou tomado pelos mesmos sentimentos dali a dez, vinte, trinta anos.

Muito obrigado pela visita, Paul. Graças a você, esse moleque voltou.

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2 comentários

  1. Se eu posso me considerar seu sobrinho eu não sei direito, qando li o seu recado no msn para olhar o blog não esperava tamanha importância da sua parte de festivais de rock, senti muita inveja de você sobre o show do Paul que você foi aos 14 anos, fiquei triste sobre o show do Pearl Jam que você perdeu. Mas obrigado por se importar e me fazer ler esse texto, sinceramente fiquei emocionado com tal relato. Espero poder curtir com você e com a Thais o Rock in Rio de 2011 e que você possa escrever sobre a experiência no blog. Abraços e Saudades.

  2. A chance voltou, é Sir Paul no Rio em menos de dois meses…
    Estive lá em novembro e no pacaembú em 93.
    Se o próprio disse que o primeiro show dessa nova apresentação de SP foi um dos maiores da carreira, que mais posso dizer?

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