Minhas Copas do Mundo: Alemanha, 2006

Logo da Copa de 2006, disputada na Alemanha

Dois mil e seis foi um ano que começou com mudanças profundas na minha vida profissional. Depois de dez anos trabalhando no mercado publicitário em suas inúmeras variáveis (criação publicitária, promoção, planejamento etc.), vivi uma guinada radical já no fim de janeiro.  Movido pelo antigo desejo de trabalhar exclusivamente com esportes a motor, enveredei pelo caminho do jornalismo na condição de estagiário dos canais SporTV, vaga conquistada após um processo seletivo que levou quatro meses e que consumiu um bom punhado de neurônios.

Prestes a completar 30 anos de idade, me vi de repente no mesmo barco de meninos que estavam, em sua maioria, na casa dos 20, 22 anos.  Todos cheios de disposição, boas ideias e absolutamente afinados com o linguajar e os métodos televisivos – algo que por um bom tempo foi um enorme problema para alguém que precisava, como era o meu caso, recomeçar do zero todos os dias. O desespero batia (e forte) quando percebia que toda a bagagem adquirida em uma década como profissional de comunicação não me servia para nada nesta fase. Serviria futuramente, mas até isso acontecer foi preciso ralar muito para me adaptar à nova realidade.

Por sorte, minha geração de estagiários (oito pessoas, contando comigo) era muito unida, e todos se ajudavam na medida do possível. Desde o início, a expectativa de começar a trabalhar num canal de esportes justamente num ano de Copa do Mundo mexia com a molecada, que respirava futebol. Feito um peixe fora d’água, eu me esforçava para acompanhar não apenas a ‘bola rolando’, mas o universo esportivo em geral, uma vez que era obrigado a mexer no dia a dia com todo tipo de modalidade. Até mesmo esportes a motor.

Goleiro da Seleção no gramado do Maracanã? Pois é, tem coisas que só a propaganda faz por você...

Parte desta turma teve a chance de entrar mais cedo no tão esperado ‘clima da Copa’. A oportunidade chegou em fevereiro, numa inusitada situação que reuniu 25 funcionários e estagiários dos canais GloboSat, selecionados para a produção de uma foto que ilustraria a campanha publicitária do SporTV para o Mundial da Alemanha. E eu, que até outro dia era publicitário, também acabei me tornando um dos ‘modelos’. Tudo foi encarado como uma grande curtição. A ficha só caiu, de fato, quando pisamos no gramado do Maracanã vestidos a caráter, feito uma seleção que entra em campo para disputar um jogo no estádio mais famoso do mundo. A imagem foi publicada em revistas de grande tiragem e em mais de 130 outdoors no Rio de Janeiro e em São Paulo.

À medida que a Copa se aproximava, meu ritmo de trabalho foi se intensificando. Primeiramente, com eventos paralelos, como os amistosos preparatórios dos adversários do Brasil (Austrália, Japão e Croácia). Na função de produtor, convivi com figuraças como Alex Escobar e Zé do Carmo, os comentaristas destas partidas, o que rendeu boas gargalhadas antes e depois das transmissões. Posteriormente, as atenções se voltaram para a Copa, propriamente dita. E foi aí que experimentei pela primeira vez na vida a sensação de fazer parte da cobertura de um evento deste porte dentro de uma grande empresa de comunicação.

Todo o processo que havia começado com os amistosos preparatórios, com a transmissão dos treinos direto da concentração brasileira e mais um monte de matérias sobre o Mundial acabou amenizando o impacto da abertura da Copa, que transcorreu como mais um dia de muito trabalho. Naquele dia, a correria maior foi para mandar a tempo meus palpites para o bolão do pessoal da redação, onde eu fui o único a apontar uma vitória de 4×2 para os donos da casa sobre a seleção da Costa Rica no jogo de estreia do Mundial. Batata! Acertei sozinho e provoquei algumas caretas dos colegas, especialmente dos que não aceitavam que justamente aquele estagiário que não entendia patavinas de futebol tivesse cravado o placar logo no primeiro jogo. É óbvio que despenquei na classificação depois disso, mas OK. Valeu pelos 15 minutos de fama.

Com direito a uma discreta peruca verde e amarela, o 'creizipípol' Fausto Macieira comanda a festa na redação do SporTV no Rio de Janeiro, momentos antes da estreia do Brasil na Copa de 2006, contra a Seleção da Croácia

Acompanhei a estreia da Seleção Brasileira na redação, em meio a uma empolgada massa de colegas – todos a serviço, claro – vestidos com camisetas amarelas. Uma experiência diferente, mas que me lembrou um pouco a época da radio, onde eu trabalhava durante a Copa de 1998. Foi neste dia, também, que vi pela primeira vez uma transmissão em HD, quando parei por alguns minutos em frente ao ‘aquário’ da engenharia, onde uma enorme TV widescreen exibia a partida. Após os jogos, voltávamos à invariável rotina de links ao vivo, produção de matérias e toda a loucura que só quem trabalha numa redação de esportes, seja TV, jornal ou Internet, consegue entender.

Em termos de resultados, o Brasil se classificou sem sustos para as oitavas de final, embora tenham ficado no ar algumas dúvidas quanto à coesão da equipe – teoricamente fruto de uma ‘panelinha’ de meia dúzia de jogadores. A discussão se intensificou quando o time reserva mostrou um futebol bem melhor que o titular em uma das partidas da primeira fase. De qualquer forma, com ou sem panela, parecia claro que havia algo estranho com aquele grupo. Um clima interno que acabou sendo decisivo para a desclassificação nas quartas de final, contra a França.

Este jogo, aliás, virou o maior anti-clímax do Brasil em 2006. Na prática, foi a única partida em que a turma permaneceu visivelmente tensa em frente à TV durante os 90 minutos, enquanto os franceses davam um passeio. Zidane, o mesmo carrasco de 1998, deu passes de calcanhar, um chapéu no rotundo Ronaldo e ajudou a construir a jogada que culminou no gol de Henry depois de uma cobrança de falta. O apito final decretou o fim do sonho brasileiro de conquistar o hexa na Alemanha e, por tabela, o fim da Copa para mim. Já no dia seguinte, fui escalado para produzir as transmissões do torneio de tênis de Wimbledon, função que cumpri até o último jogo – por coincidência, no mesmo dia da final da Copa.

Na prática, isso significou uma mudança de horário que me permitiu assistir a alguns jogos em casa, incluindo a grande final entre Itália e França. Como o Brasil não estaria na decisão pela primeira vez desde 1990, lembrei do velho costume de outros Mundiais de escolher para quem torcer. Mas não consegui chegar a um acordo. Não queria ver os franceses levantando a taça de novo, tampouco ver os italianos chagando ao tetra e encostando no Brasil. No entanto, admito: quando tudo acabou, veio um certo alívio pelo insucesso do time que havia provocado as duas últimas derrotas brasileiras em Copas.

Depois daquela Copa, continuei minha caminhada em busca do sonho de trabalhar exclusivamente com esportes a motor, que se tornou realidade ao fim do estágio, logo após o Pan de 2007. Com a função de produtor e editor dos programas Linha de Chegada e Grid Motor, veio outra grande mudança: deixar o Rio e partir com mala e cuia para a cidade de São Paulo. No novo endereço, vieram novos sonhos e muito trabalho. E  também uma nova Copa do Mundo. Que renderá daqui a quatro anos, quem sabe, mais um texto para esta série – que, por enquanto, fica por aqui. Que venha o Mundial da África do Sul!

Faltam 5 dias para a Copa do Mundo! 

  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1986, no México.
  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1990, na Itália.
  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1994, nos Estados Unidos.
  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1998, na França.
  • Clique aqui para ler as memórias sobre a Copa de 2002, na Alemanha.
  • Clique aqui e conte suas primeiras memórias de uma Copa do Mundo.

Participe da discussão

1 comentário

  1. Cara,

    Muito bacana!

    Sabe o que é mais “engraçado”?
    É exatamente o que estou vivendo em 2010, trabalhando em uma redação de esporte em ano de Copa do Mundo. A diferença é que não tenho seus 30, e sim meus 22.
    É sensacional!

    Abraço!


    Alexandre Ciszewski

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *