Minhas Copas do Mundo: Japão e Coreia, 2002

Lembro-me até hoje da expressão um tanto desbocada que soltei quando soube, ainda na década de noventa, que a Copa do Mundo de 2002 seria disputada em dois países. Achei aquilo um acinte, uma ruptura com toda a tradição dos Mundiais. Resumindo, considerava uma várzea dividir um evento daquele porte entre dois territórios. Devo admitir, no entanto, que, à medida que os anos foram passando, a resistência diminuiu e fui, pouco a pouco, me acostumando à ideia. Mas só mesmo quando entramos em 2002 que me dei conta de que o problema, na real, era outro: pela primeira vez na história, acompanharíamos uma Copa de madrugada. Ah, e no inverno. 

Habituados a assistir aos jogos durante a tarde ou pela manhã, movidos a churrasco e cerveja, os brasileiros precisaram adaptar-se à novidade, criando uma rotina que mesclava o tradicional clima de feriado em dias de jogos do Brasil com um esquema de quase sacrifício – já que, durante o dia, era praticamente como se a Copa não estivesse acontecendo. Assim, cada um inovou à sua maneira: ao longo do mês de junho, era comum ver pessoas reunidas até altas horas em bares e restaurantes, assistindo aos jogos à base de sopa e vinho; isso quando os jogos não coincidiam com uma faixa de horário que pedia um café da manhã, item que ganhou até versões temáticas (alusivas à Copa, é claro) nos menus de alguns estabelecimentos. Todavia, a opção da maioria foi mesmo acompanhar tudo no conforto do lar, de preferência debaixo das cobertas. 

Neste cenário, reunir a turma para ver os jogos continuava sendo um programa legal, mas que exigia algumas concessões. Inevitavelmente, era preciso fugir um pouco do esquema tradicional de bagunça, comilança e gritaria. Mesmo quando o Galvão abria a transmissão chamando o link que mostrava a turma do Olodum, com todos os integrantes uniformizados, pintadinhos e tocando percussão – isso às, três, quatro, cinco da manhã. Pelo nonsense da situação, cada nova aparição da banda baiana arrancava gargalhadas de todos que assistiam à TV. Também era divertido (e até certo ponto romântico) acompanhar o noticiário do Mundial no Jornal Nacional. Do Brasil, às 8h15 da noite, William Bonner dizia: “bom dia, onde está você, Fátima Bernardes?”. E a Fátima, lá do outro lado do universo, às 8h15 da manhã, respondia: “boa noite, William”. Um explícito namoro à distância que não derrubou em momento algum a qualidade do jornalismo. 

Poucas semanas depois de completar 26 anos, minha relação com a Copa de 2002 não foi tão intensa quanto a anterior, quando trabalhava na rádio e tive a chance de conviver com a reação popular nos dias de jogos. Mesmo assim, produzi algumas coisas que tinham, direta ou indiretamente, ligação com o Mundial. Atuando como redator da Via 4 Comunicação, uma agência de propaganda de estrutura reduzida e com um astral espetacular, criei anúncios de oportunidade para clientes dos mais diversos (de loterias instantâneas a farmácias de manipulação) e também uma infinidade de tabelas, de todos os tipos, formatos e tamanhos. Afinal, numa época como esta, torna-se praticamente uma obrigação para o comércio pegar uma carona no clima de euforia que só uma Copa consegue proporcionar aos brasileiros. 

Mas é bom lembrar que, por pouco, não ficamos de fora da brincadeira. Depois de três trocas de técnico, o time canarinho, único a participar de todos os Mundiais da história, garantiu presença na primeira edição asiática das Copas do Mundo após uma classificação sofrida nas rodadas finais das eliminatórias. E assim pudemos, apesar do susto, manter a rotina de decorar ruas, comprar guias, entrar em bolões e assistir aos jogos. Falando em bolão, acabei meio sem querer virando o responsável pelo da agência, que contava com cerca de 15 pessoas. E, para variar, surpreendi na primeira fase, para despencar das oitavas em diante. 

Às vésperas do primeiro jogo do Brasil, minha turma se reuniu na quitinete de uma amiga, na zona sul do Rio de Janeiro, tocando o terror num imóvel que, de tão pequeno, foi apelidado de ‘cafofo’. No início, a opção foi fruto do improviso, uma escolha de última hora, mas acabou tornando-se um ritual à medida que nossa Seleção avançava na competição. A galera do ‘cafofo’ variava jogo a jogo, embora houvesse uma meia dúzia de quatro ou cinco que compareceu ao local em todos os seis jogos disputados pelos brasileiros antes da final. Alguns momentos foram mais tensos, como a partida semifinal contra a Turquia (1×0), outros nem tanto, como os jogos da primeira fase contra a Costa Rica (5×2) e a China (4×0). A animação, sempre presente, só aumentava à medida que alguns rivais iam ficando pelo caminho – caso de Argentina, França e Portugal, favoritos que sequer passaram da fase de grupos. Enquanto isso, a ‘família Scolari’, comandada pelo técnico Felipão, mostrava a força de seu conjunto, chegando a mais uma decisão de Copa do Mundo. 

Antes do inédito Brasil x Alemanha que apontaria o novos campeões mundiais, a dona da quitinete, na melhor da intenções, veio com a ideia de assistirmos à decisão na casa da mãe dela, em Copacabana, a poucos quilômetros dali, por conta do maior espaço. Entre a falta de coragem para contestá-la e a vontade de manter a corrente que tinha nos levado até a final, topamos. E começamos aquele domingão, 30 de junho, invadindo às sete e meia da manhã um apartamento que de grande não tinha nada, e que àquela altura já estava pra lá de cheio. Quando o jogo começou, o clima era de festa. Família grande, criançada na toda, amigos reunidos, horário menos ingrato, acepipes para beliscar, uma beleza. Não fosse por um detalhe: o ponteiro do relógio corria, o atacante Ronaldo corria, e nada da bola entrar. Ao fim do primeiro tempo, placar intocado. Brasil zero, Alemanha zero. 

Para quem tinha até então visto todos os jogos no mesmo ambiente, acompanhar justamente o último deles em local diferente foi o suficiente para plantar aquela pulguinha atrás da orelha. O segundo tempo começou e, com os zeros persistindo, a cabeça não dava trégua a cada ataque alemão: será que, depois de tanto sofrimento, iríamos perder? Por outro lado, a cada chegada frustrada do time brasileiro, trocas de olhares na sala questionavam silenciosamente por que, afinal, havíamos deixado o ‘cafofo’ logo na decisão. Estávamos indo tão bem… 

Contudo, os deuses do futebol estavam mesmo do nosso lado. No meio do segundo tempo, o goleiro Oliver Khan, um gorila albino que só havia levado um gol em seis jogos, espalmou um chute colocado de Rivaldo. Ronaldo, acreditando no lance que o companheiro já dava como perdido, avançou na área antes da defesa e pegou o rebote, mandando para a rede. Um a zero para o Brasil, enfim. Um gol que representou o alívio de todos os egressos do ‘cafofo’, já indóceis com aquela dificuldade em furar a defesa adversária. Mas o alívio definitivo viria alguns minutos depois, quando o mesmo Ronaldo fez o segundo e o grito de pentacampeão começou a ser ensaiado. Ao fim do jogo, com a alma lavada depois de uma vitória incontestável, resolvemos comemorar. Estávamos a poucos quarteirões da praia de Copacabana, cujo calçadão tem sua área de lazer ampliada aos domingos e feriados, com o fechamento de uma das pistas da Avenida Atlântica. Área e clima altamente propícios para um momento como aquele, foi o que pensamos. 

No caminho, o som alto já ecoava nas ruas internas do bairro. A festa estava a pleno vapor, mas parecia um pouco estranho que, em vez de samba, estivessem tocando músicas de discoteca, incluindo de artistas como Madonna e George Michael. Bastou virarmos a última esquina para cair a ficha: estava rolando naquele exato momento uma animada e onipresente parada gay. Mas, àquele ponto, tudo se misturava. Por um lado, até mesmo a turma que rebolava sobre os trios elétricos estava no pique do penta. Por outro, muita gente teve a mesma ideia que a gente, descendo para comemorar no calçadão, o que democratizou de vez a festa. Assim, ficamos por lá mesmo. Embora só comemorássemos o título da Seleção, naquele dia a alegria à nossa volta teve várias cores além do verde e do amarelo. 

Dias depois, a galera se reuniu mais uma vez neste mesmo local – agora, sem os trios elétricos e os go-go boys – com o intuito de esperar a Seleção. A delegação desembarcara no Santos Dumont no início da tarde, depois de um giro de mais de sessenta horas que começara na Ásia e havia passado por Brasília e São Paulo. Do aeroporto, os jogadores e o técnico desfilaram pela orla num caminhão aberto, ao som incessante do sambinha ‘Deixa a Vida me Levar’, de Zeca Pagodinho, executado à exaustão. Exaustão, esta, que tomou conta do time, praticamente dormindo em pé. Enquanto nós e outras milhares de pessoas víamos cair a noite na praia de Copacabana esperando para saudar a Seleção, o desfile era encerrado na Praia do Flamengo, uns quatro quilômetros antes de onde estávamos. Mas como a notícia só chegou horas depois, continuamos ali por muito tempo, gritando, empunhando bandeiras e comemorando. Mas pouco importava. No fundo, era como se a Copa, enfim, tivesse voltado ao seu fuso horário. Depois de tantas madrugadas viradas, conseguimos ir à forra da melhor maneira: soltando o grito de campeão em alto e bom som.

Faltam 10 dias para a Copa do Mundo da África do Sul! 

Daqui a cinco dias, as memórias sobre a Copa de 2002, na Alemanha.

  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1986, no México.
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  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1994, nos Estados Unidos.
  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1998, na França.
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3 comentários

  1. A lembrança que eu tenho dessa copa, fora o título do Brasil, foi as mermeladas da arbitragem. Chegou a ser engraçado o que fizeram com a Espanha e com a Itália… fora o teatro do Rivaldo no jogo contra a Turquia, etc…
    Ainda estava no colegial e não pude acompanhar direito os jogos, principalmente os decisivos, que sempre são os mais interessantes e caiam na parte da manhã.
    Esse ano os jogos vão cair em horário comercial, e pelo jeito não vou poder acompanahr direito os outros jogos, também. Mas a gente sempre dá um jeito!

  2. Eu tava nessa. Foi fantástico.
    A casa de Copa era da minha sogra o que aumentava a zona e a sensação de incerteza quanto ao resultado do jogo.
    Se perdéssemos já tínhamos elegido a culpada.
    Mas tudo deu certo e fomos todos, inclusive minha mulher Carmelita e minha filha, então com 11 anos, nos divertir na Av. Atlântica junto à “VII Parada do Orgulho Gay”.
    E nós acreditando que aquele pessoal, que víamos de longe lá no Leme, eram muito otimistas e tinham preparado toda a festa certos do título.
    Festa ou festa o certo é que nos divertimos muito. Com todo o respeito e simpatia que só é possível no Brasil, no Rio de Janeiro.
    E que venha o HEXA.

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