Minhas Copas do Mundo: França, 1998

Logo da Copa de 1998, disputada na França

Naquele segundo semestre de 1997, tudo aconteceu muito rápido. Depois de dois anos de intensa (e nem sempre bem remunerada) atuação no mercado publicitário, e também de duas tentativas fracassadas em vestibulares de universidades públicas, optei por iniciar o curso de jornalismo em uma faculdade particular. Sim, jornalismo. Na prática, porque o curso técnico de três anos em publicidade, concluído em 1995, segurava bem a onda; e na teoria porque, de certa maneira, ser jornalista era um caminho que me parecia mais sério do que aquilo que eu vinha vivendo em agências e outras empresas onde atuava. Mas não a ponto de me atrair de imediato, e sim como uma escolha para um futuro relativamente distante.

Ainda no primeiro mês como aluno da FACHA, uma conversa de pátio na qual entrei de gaiato acabou rendendo um convite para uma entrevista de emprego na Rádio Cidade, na época a principal emissora de FM carioca voltada ao público jovem. Alguns dias depois, de crachá pendurado no peito, eu já fazia parte da equipe de promoção: de segunda a sexta, durante o dia, andava pelas ruas numa van adesivada, fazendo ações promocionais em diversos pontos do Rio de Janeiro; de quinta a domingo, à tarde e à noite, era presença garantida em boates e casas de shows, dando uma força nos eventos que tinham contrato com a emissora.

Com uma rotina dessas, minha vida de universitário evidentemente entrou em coma profundo durante os quase dois anos em que trabalhei na Cidade e na coirmã JB-FM. Só encontrava os colegas de curso nas inúmeras festas e shows promovidos ou apoiados pela rádio. Um ritmo acelerado que fez o tempo passar bem depressa até o mês de maio de 1998. De uma hora para outra, começamos a receber remessas de camisetas amarelas, montes e montes de adesivos com desenhos especiais, sem contar as diversas reuniões com fornecedores de todos os tipos de brinde. O motivo? Estávamos às vésperas de mais uma Copa do Mundo.

Os onipresentes minicraques da Coca-Cola, aqui representando Dunga, Ronaldo e o cortado Romário

Para completar o cenário, o Sistema Jornal do Brasil de Rádio, dono das duas emissoras, se associou ao Grupo O Dia, criando uma joint venture que incluía ações conjuntas com a rádio deles, a FM O Dia, voltada ao segmento popular e líder absoluta em audiência no Rio de Janeiro. Uma aliança que transformou o planejamento promocional para a Copa num verdadeiro carnaval fora de época. Entre outras coisas, ficou acertado que faríamos um esquema de guerrilha nos dias dos jogos do Brasil, com toda a equipe em ação, distribuída em três carros por diversos pontos da cidade. Especialmente os locais que reuniam grande concentração de pessoas, na zona norte e na zona sul, com direito a sistema de som e brindes a granel. Antes mesmo de a Copa começar, já trabalhávamos em clima de ‘Brasil-sil-sil’: com uma frequência inacreditável, distribuíamos minicraques da Coca-Cola, camisetas da Nike, CDs single da Sony Music (com o a música “É uma partida de futebol”, do Skank), entre diversos objetos que faziam referência aos patrocinadores da Seleção Brasileira – quase todos comprometidos comercialmente conosco, também.

Toda esta aventura, é claro, aumentou ainda mais o nosso já intenso volume de trabalho. Mas, com 22 anos de idade, você não está lá muito preocupado com isso. No meu caso, havia ainda um quê de curtição, já que a Copa de 1998 seria a primeira onde eu cumpriria alguma atividade profissional em torno do Mundial. E assim, no dia 11 de junho, caixas de pizzas e salgadinhos, isopores com latas de refrigerante e cerveja e muitos adereços em verde e amarelo passaram a compor o ambiente de trabalho na enorme sala do departamento de promoção e marketing, situado no sétimo andar do lendário prédio do Jornal do Brasil. As mesas e o chão viraram uma grande arquibancada em frente à TV de 34 polegadas novinha em folha que seria entregue, ao fim da Copa, àquele que vencesse o bolão que envolvia praticamente todos os 100 funcionários da rádio.

Neste primeiro jogo, contra a Escócia, a equipe estava em polvorosa. Mesmo empolgado, eu era o retrato da timidez se comparado à maior parte dos meus companheiros de trabalho. Para entrar no clima, vesti nosso uniforme, uma camiseta amarela que vinha com o logo da Rádio Cidade em verde (que guardo até hoje). De quebra, prendi também uma camiseta do Grêmio na cintura, brincando que aquele era meu ‘kilt’. A festa ficou mais intensa logo no início da partida, com o gol de César Sampaio. Mas o primeiro tempo terminou com o placar em 1×1, o que fez com que eu atendesse às ‘sugestões’ sobre acabar com aquela história de kilt. Dito e feito. No segundo tempo, sem a camisa na cintura, os escoceses marcaram um gol contra, e assim o Brasil venceu a primeira partida no Mundial da França. E nós todos, como era previsto, nos mandamos para a rua.

No segundo jogo, o mesmo roteiro. Sala decorada, salgadinhos, isopores com bebidas e muita animação. Brasil 3×0 sobre Marrocos, e mais fuzuê em diversos pontos da cidade. Mais alguns dias e tudo de novo: uniformizados, comendo, bebendo, torcendo e sofrendo em frente à TV com uma atuação irregular da Seleção Canarinho contra a Noruega. Só que, desta vez, o Brasil simplesmente não conseguia transformar seus ataques em gols, e acabou derrotado por 2×1. Se por um lado fiquei triste com o resultado, por outro ganhei a liderança do bolão, já que havia sido o único que apostara na derrota brasileira naquele jogo – com o requinte de acertar o placar. “Sei separar as coisas”, repetia meio sem jeito aos meus incrédulos colegas de trabalho, que não engoliram muito bem a explicação.

Na vitória ou na derrota, o ritual de buscar as aglomerações de torcedores em praças e ruas decoradas – geralmente repletas de bares e com um pequeno palanque montado com enormes caixas de som – se repetiu após as sete partidas da Seleção Brasileira. Com a diferença que a equipe, já exausta, ganhou uma escala de folgas a partir da segunda fase. A minha caiu justamente no jogo das oitavas de final, contra o Chile. Um tranquilo 4×1 que eu assisti em casa, largado no sofá, enquanto minha mãe, fazendo mil outras coisas, se limitava a dar espiadas esporádicas na TV. Quando todos os confrontos das quartas já estavam definidos, minhas chances de faturar o bolão tinham despencado vertiginosamente, com várias das minhas equipes favoritas eliminadas.

Nesta fase, o Brasil teve mais um jogo difícil, superando a Dinamarca com um placar apertado (3×2). Aos trancos, nos classificamos para a semifinal, naquele que seria um dos jogos mais tensos que já assisti numa Copa do Mundo: a partida contra a Holanda, um time jovem e renovado que havia eliminado a Argentina poucos dias antes. Àquela altura, o técnico Zagallo vinha acumulando críticas e cornetadas de todos os setores da imprensa, num processo que começou com o discutível corte do atacante Romário por lesão antes mesmo do primeiro jogo. Questionado e de cara amarrada, o velho Lobo entrou em campo como um verdadeiro motivador quando a partida terminou em 1×1. Foi falar com cada um dos jogadores antes da disputa por pênaltis, incluindo um ‘cara a cara’ histórico com o goleiro Taffarel. O arqueiro brasileiro pegou duas cobranças e o Brasil garantiu a classificação, para alegria e alívio do treinador.

Depois daquele jogo, nosso giro pela cidade foi longo. Para minha sorte, ele terminou na Praça Varnhagen, conhecida como ‘o Baixo Tijuca’, num show da banda Mais do Mesmo. Afiadíssima em seu repertório de covers da Legião Urbana, a turma nos convidou durante as primeiras músicas para também subirmos ao palco, de onde atiramos algumas camisas em direção ao público. Depois, com a promoção terminada, a equipe se dispersou. Mas eu continuei ali, no cantinho do palco, ao lado da bateria, cantando cada verso a plenos pulmões, como um espectador privilegiado daquela apresentação. Uma noite para lavar a alma.

Um desolado Ronaldo após o final contra a França

Até que veio a final e todo aquele banho de água fria. Ainda estava em casa, me arrumando para ir para o JB, quando vi na TV que Edmundo estava relacionado como titular em lugar de Ronaldo. Quando cheguei à rádio, Ronaldo já aparecia novamente entre os 11 que entrariam em campo contra a França, sem mais explicações. Alguns anos depois, entenderíamos que todo o time estava apático e nervoso em campo por causa de uma convulsão do atacante, que assustou todo o grupo e mostrou a falta de preparo da comissão técnica numa situação dessas. Para piorar, o camisa 10 do time francês, um careca de quem eu nunca ouvira falar chamado Zidane, estava inspirado e fez dois gols na vitória por 3×0 sobre nossa Seleção. Toda a alegria que eu experimentara quatro anos antes, quando vi pela primeira vez o Brasil numa final, se desmanchou momentaneamente naquela derrota.

E o que era para ser o gran finale do nosso planejamento de promoção acabou como uma desanimada distribuição de brindes aos que terminaram o segundo domingo de julho afogando a tristeza nos bares do bairro de Vila Isabel, para onde o carro onde estava o meu terço da equipe se dirigiu. Uma ação que foi mecanizada e sem graça, até o momento em que nós, em comum acordo, a demos como encerrada. Não havia mais clima para brindes, brincadeiras ou promoções. O que todo mundo queria era ir para casa, tomar um bom banho e tentar esquecer aquele jogo. Foi exatamente o que eu fiz, me despedindo da turma para cruzar a pé os quatro quarteirões que restavam até meu endereço, no mesmo bairro.

Os dias foram passando, a tristeza se dissipando, e tudo voltando à rotina. Depois daquela Copa, continuei na rádio por mais um ano. Neste período, cresci na empresa, chegando a chefe da equipe de promoção de rua. Mas a paciência, pouco a pouco, foi diminuindo. Além das aporrinhações no trato com alguns superiores diretos, a relação custo/benefício daquele emprego, com uma carga horária absurda e nenhum tempo para a família e os estudos, também pesou na decisão de pedir demissão em agosto de 1999. Saí por cima, por conta própria, antes que as lembranças ruins suplantassem as boas. Algo que visto em perspectiva, mais de uma década depois, tem ainda mais valor para mim.

Apesar da derrota no último jogo, a Copa do Mundo de 1998 figura entre as lembranças boas da época em que fiz parte daquela equipe incrível, por tudo o que fizemos e vivemos vestindo a camisa da rádio. Uma Copa de sensações inesquecíveis, mesmo que eu e o Brasil inteiro tivéssemos que esperar mais quatro anos para assistir novamente a um final feliz. Mas isso já é outra história.

Faltam 30 dias para a Copa do Mundo da África do Sul! 

Daqui a dez dias, as memórias sobre a Copa de 2002, no Japão e na Coreia.

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