Minhas Copas do Mundo: Estados Unidos, 1994

Logo da Copa de 1994, disputada nos Estados Unidos

Em meados de junho de 1994, mais uma Copa do Mundo estava prestes a começar. Seria a primeira nos Estados Unidos, um país sem tradição no esporte, mas disposto a popularizá-lo a qualquer custo. Só que, enquanto isso, aqui no ‘país do futebol’, o assunto mais comentado na TV e nas rodinhas informais de conversa ao longo das últimas semanas não era exatamente a escalação da Seleção Brasileira, nem a possível quebra de um jejum de títulos que já alcançava 24 longos anos – desde o tricampeonato mundial no México, em 1970. Isso porque um acontecimento que se desdobrou ao longo de todo o mês de maio ainda ecoava com força na cabeça dos brasileiros: a perda de Ayrton Senna.

Depois de sucessivas derrotas, dentro e fora das Copas, havia algum tempo que o ‘escrete canarinho’ não era mais visto com o temor de outrora. Mesmo com todo o histórico de conquistas e craques, nossa Seleção não conseguia mais ser considerada referência, sinônimo do melhor futebol do mundo. Como reflexo direto desta maré baixa nos gramados, o País passou a torcer, meio sem se dar conta, por esportistas brasileiros de outras modalidades. Como o vôlei, campeão olímpico e mundial, e os pilotos de Fórmula 1, responsáveis por oito títulos em duas décadas. Um apego emocional que só contribuiu para multiplicar a dor coletiva no instante em que o piloto mais popular do mundo deixou as pistas e entrou para a história.

Com recém-completados dezoito anos, eu passava na época por uma das fases mais contrastantes de toda a minha vida. Por um lado, havia encontrado um rumo, escolhido uma carreira; me qualificava mais e mais a cada dia e caminhava a passos largos para ingressar no mercado publicitário. Por outro, vivia em casa um aperto financeiro daqueles, sendo obrigado a atrasar o pagamento das mensalidades do curso técnico de publicidade e a me privar de coisas básicas – como, por exemplo, ter um aparelho de TV. Quando ficamos sem o nosso, no fim de 1993, simplesmente não havia grana para comprar outro, nem mesmo usado. O que circunstancialmente acabaria me poupando de assistir ao acidente fatal de Senna ao vivo, já que só havia me restado um velho rádio para acompanhar as corridas de Fórmula 1.

Mesmo a alguns dias da estreia do Brasil na Copa de 1994, a perda de Ayrton Senna ainda repercutia no noticiário

O desaparecimento de um ídolo como Senna foi um baque e tanto, ainda mais num momento difícil como aquele, em que cheguei a fazer e vender sanduíches naturais no colégio para pagar ao menos parte da dívida com a instituição e continuar estudando. Porém, mesmo com tantas privações, eu fazia questão de viver de cabeça erguida, sempre sorridente e brincalhão. Uma atitude que abria portas, me conectava a outras pessoas e, por tabela, ajudava a encarar as adversidades. À medida que a Copa se aproximava, mantive este espírito, e fiz questão de participar de todas as atividades do meu animado círculo de amigos. O que incluía decorar cirurgicamente a Rua Pereira Nunes, próxima da minha casa e uma das principais do bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro.

Durante o segundo ano do curso técnico de publicidade do Liceu de Artes e Ofícios, já me parecia nítido que minha capacidade de escrever era realmente maior do que a aptidão para desenhar – algo que eu gostava imensamente desde criança. Mas nem por isso havia deixado os traços de lado. Eles costumavam aparecer, especialmente, quando eu fazia uma prova um pouco mais difícil e o nervosismo vinha à tona. Além das questões respondidas, a folha acabava ganhando uma porção de rabiscos por todo lado, para desespero do professor que tivesse que corrigi-la. Mas foi justamente por causa destes desenhos, que viraram motivo de piada para o resto da turma, que acabei me tornando o responsável por criar a base de todas as pinturas da rua naquele ano, no asfalto e nos muros. Um trabalho minucioso que consumiu algumas madrugadas, mas que ficou muito bacana.

O blogueiro aos dezoito anos, posando ao lado da Seleção Brasileira desenhada na Rua Pereira Nunes, quase esquina com o Boulevard Vinte e Oito de Setembro, no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. De pé: Taffarel, Ricardo Rocha, Mauro Silva, Jorginho, Marcio Santos e Zinho; agachados: Dunga, Leonardo, Raí, Ronaldo e Bebeto

Durante a concepção da decoração, Senna não foi esquecido, logicamente. Uma enorme reprodução do personagem Senninha, vestido com a camisa do Brasil, aparecia com destaque na parte central da rua, pintado no asfalto logo depois do mascote da Copa, um simpático cachorrinho. Mas, babaca como só alguém de 18 anos consegue ser, não fiquei só nas homenagens e mascotes. Fiz questão de deixar minha marca na caricatura da Seleção titular, pintada no muro anexo à padaria, quase esquina com o Boulevard 28 de Setembro. Achando a marra daquele tal de Romário uma afronta ao momento difícil que o país vivia – no auge da hiper-inflação, sem títulos no futebol e sem as vitórias de Senna – pintei o rosto do jovem Ronaldo, então uma promessa de 17 anos, em seu lugar. Ainda desenhei nos bolsos de Raí, Zinho, Bebeto e do próprio Ronaldo vistosos maços de dinheiro, numa alusão direta aos seus dedos indicadores apontados para o alto, símbolo de uma campanha milionária que os jogadores estrelavam para a cerveja Brahma.

É claro que, como bom torcedor, a antipatia pela postura abusada do baixinho se converteu em admiração logo no primeiro jogo, quando ele encaixou a bola com maestria no gol da Seleção Russa. Era o primeiro gol do Brasil no Mundial, motivo de muita comemoração na casa do meu amigo e futuro sócio Vinícius, onde eu assisti aos jogos da primeira fase. Mal podíamos imaginar que naquele instante, na verdade, estava sendo aberta a porteira para o título, sensação que nem eu nem ninguém com menos de 25 anos conhecia de fato. Romário ainda voltaria a brilhar contra Camarões (marcando um na vitória brasileira por 3×1) e contra a Suécia, um jogo difícil que terminou num tenso 1×1.

'Eu te amo!': Bebeto abraça Romário após marcar o gol da vitória brasileira nas oitavas de final, eliminando o time da casa no dia da independência dos Estados Unidos

Mas se alguém achava que a partida contra a Suécia tinha sido mesmo tensa, veio uma sequência implacável para o torcedor brasileiro. A partir das oitavas de final, foi um jogo mais emocionante que o outro, cada um à sua maneira. Começando pela partida conta os Estados Unidos, coincidentemente disputada num 4 de julho, dia da independência deles. Na decisão sobre qual time avançaria para as quartas, que aconteceu sob um sol escaldante no estádio norte-americano, Leonardo foi expulso, Romário meteu uma bola milimétrica para Bebeto e passamos raspando para a outra fase. No jogo seguinte, contra a Holanda, o susto com o empate holandês só passou quando o Branco, questionado pelo preparo físico e dado como acabado para a Seleção, cavou uma falta longe da área e fez questão de bater. A patada do lateral ficou tão famosa quanto o desvio preciso de Romário, que fez um corta luz com as costas e tirou o goleiro da jogada. Com 3×2, o Brasil estava na semifinal, algo inédito para mim.

E quem encontramos novamente nesta semifinal? Justamente a Suécia, única Seleção que o Brasil não conseguira vencer naquela Copa até então. Naturalmente, foi mais um jogo sofrido, em que a dificuldade dos nossos atacantes em colocar a bola no gol era tão grande quanto minha raiva do goleiro deles, o Ravelli, que ria e debochava a cada chance perdida. Até que, a dez minutos do fim, o baixinho Romário – sempre ele – enfiou-se entre dois grandalhões suecos e, sabe-se lá como, cabeceou certeiro. Estávamos, enfim, na final. Enfrentaríamos a Itália, que horas antes havia despachado a Bulgária (outra força daquele Mundial) com dois gols de Roberto Baggio, em pleno exercício do título de melhor jogador do mundo, conquistado em 1993.

Para minha geração, o ineditismo da situação só alimentava as esperanças de ver o Brasil levantar a taça ao fim dos 90 minutos. Para os mais velhos, que faziam questão de evitar comparações entre a Seleção de 1994 e alguns timaços do passado, como o de 1970, havia um certo receio no ar. Um medo velado de um fantasma que eu felizmente não conheci, chamado ‘tragédia do Sarriá’. Quem havia presenciado a eliminação de uma das melhores Seleções de todos os tempos para a Itália, 12 anos antes, continha o clima de festa, mesmo sem deixar de acreditar na nossa vitória.

Para a imprensa, revanche virou a palavra de ordem. De acordo com os jornalistas, a ótica dos italianos residia na chance de ultrapassar o Brasil no número de títulos, devolvendo a massacrante vitória da final de 1970. Já na visão dos brasileiros, segundo eles, tínhamos a obrigação de devolver a eliminação de 1982, entalada na garganta de toda uma geração. Como eu não tinha qualquer parâmetro sobre decisões anteriores, a impressão que a cobertura televisiva me deixou naquela semana foi a de que uma derrota provocaria marcas  muito profundas. Algo que, no dia da final, ficou martelando na minha cabeça por muito tempo. Antes de o jogo começar, no fim da tarde de um domingo ensolarado na Cidade Maravilhosa, ainda consegui diluir um pouco esta sensação. A animação e a torcida dos amigos reunidos em frente à TV na casa de um deles eram maiores que qualquer traço de medo. Relaxei.

Claro que foi difícil manter a calma com o placar insistindo em permanecer no 0x0 durante os 90 minutos. A esperança não diminuiu nem quando fomos para a prorrogação, mas no momento em que a bola parou de rolar, a apreensão tomou conta de todos ali. Uma Copa sendo decidida nos pênaltis era algo tão inesperado que cada um tentava encontrar um pilar para demonstrar nossa suposta superioridade nas cobranças: a frieza de Branco, a força de Dunga, a genialidade de Romário e, logicamente, a astúcia do goleiro Taffarel. Com o 0x0 insistindo até mesmo depois da primeira rodada de cobranças, houve até quem duvidasse que a bola realmente fosse balançar a rede naquele dia. Depois de uma defesa de Taffarel e de cobranças seguras de Branco, Romário e Dunga, cabia a Roberto Baggio manter a Itália na disputa. O italiano correu, chutou forte e acabou com o jejum brasileiro mandando a bola por cima do gol. Era o fim do sofrimento.

Jogadores exibem faixa em homenagem a Ayrton Senna após a final

Entre os muitos gritos e abraços da minha turma, ainda consegui ver pela TV a comemoração de Pelé e Galvão Bueno, as cambalhotas do pessoal da comissão técnica e o choro de alguns jogadores. Não cheguei a ir ás lágrimas, mas guardo com especial emoção o momento em que apareceu uma faixa nas mãos dos novos campeões mundiais, com os dizeres: “Senna… aceleramos juntos, o tetra é nosso!”. Tudo isso impecavelmente sonorizado, desde a bola fora de Baggio, com o Tema da Vitória, conhecido pelas vitórias brasileiras na F-1.

Mesmo sem curtir futebol como um brasileiro costuma curtir, sempre lembro com carinho da Copa de 1994. E não só por causa da campanha vencedora. Talvez porque aquele Mundial seja um marco temporal de quando as coisas começaram a melhorar na minha vida pessoal. Com a inflação refreada após a chegada do Real, a situação financeira se reequilibrou pouco a pouco na minha casa. Pude concluir o curso de Publicidade, dando início no ano seguinte a uma carreira de dez anos no mercado publicitário. E ainda me dei ao luxo de acompanhar as duas corridas finais da temporada 1994 da Fórmula 1 num aparelho de TV novo – um prêmio para quem, como eu, havia perdido grande parte das provas daquele ano. Durante uma madrugada de outubro, enquanto os pilotos aceleravam lá no Japão na iminência de mais uma decisão de campeonato, constatei silenciosamente que não veria mais Ayrton Senna em ação. Em contrapartida, tive a certeza de que aquele tetra, como dizia a faixa, também era dele. Tinha que ser.

Faltam 40 dias para a Copa do Mundo da África do Sul! 

Daqui a dez dias, as memórias sobre a Copa de 1998, na França.

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6 comentários

  1. Já havia nascido nesse ano…. pena não ter acompanhado nem a vitória do Brasil na copa e não ter visto sequer uma corrida ao vivo de Ayrton Senna, o melhor piloto de fórmula 1 do Brasil

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