Minhas Copas do Mundo: Itália, 1990

Logo da Copa do Mundo de 1990, disputada na Itália

Ao contrário do Mundial anterior, no México, eu tinha uma boa noção do que estava acontecendo quando a Copa de 1990, disputada na Itália, começou. Só que com 14 anos de idade, completados exatos 30 dias antes do jogo inaugural entre uma surpresa chamada Camarões e a então campeã Argentina, meu interesse por esportes não residia exatamente no futebol. Ao contrário de grande parte dos meus amigos, que largavam tudo para bater uma bolinha, meu negócio era velocidade. De todas as formas, diga-se. Correndo a pé na rua, fosse em brincadeiras de ‘pique’ ou numa corriqueira ida à padaria; correndo de bicicleta em circuitos absolutamente improvisados no quarteirão da minha casa; e, claro, descendo ladeiras feito um louco no meu colorido e inesquecível carrinho de rolimã. Num legítimo e delicioso ‘time-extended’ da infância, que ainda duraria mais um ou dois anos.

Toda esta veia, digamos, velocista, decorria dos meus programas favoritos na TV aos fins de semana: as corridas de Fórmula 1, Fórmula Indy, Fórmula 3, Fórmula Ford, Motovelocidade e tudo mais que fosse exibido contendo o binômio motor-competição. Tal fissura não era para menos. Desde o fim da última Copa, eu havia acompanhado momentos incríveis nas pistas, como o terceiro título de Nelson Piquet e o primeiro de Ayrton Senna na F-1, além das conquistas de Emerson Fittipaldi na Indy, com direito a uma vitória antológica nas 500 Milhas de Indianápolis. Sendo assim, enxerguei aquele segundo domingo de junho de 1990 como o dia em que “também” teríamos o jogo de estreia do Brasil na Copa da Itália. Antes de mais nada, logo no início da tarde, aconteceria o Grande Prêmio do Canadá.

Se a chance do futebol reverter este quadro de devoção ao automobilismo já era pequena, ela começou a ir definitivamente para o espaço naquele mesmo dia. A corrida de Montreal, exibida no Brasil imediatamente antes da partida entre Brasil e Suécia, terminou com dobradinha verde e amarela: Senna em primeiro, Piquet em segundo, com grandes exibições de ambos. O jogo acabou sendo um ‘rescaldo’ do GP, que pegou carona no meu entusiasmo. Confesso que não lembro detalhes desta primeira partida, mas me recordo de ter acompanhado todos os jogos da Seleção naquele Mundial. Até porque, por mais que se goste de automobilismo ou qualquer outro esporte, não há como ficar imune ao clima de uma Copa do Mundo quando se vive em território brasileiro.

Copo decorado da Pepsi, com os jogadores desenhados

E eu, evidentemente, entrei no clima. Juntei os cromos que vinham nos salgadinhos Elma-Chips com desenhos das bandeiras e das roupas típicas de cada país participante, trocando os repetidos com os colegas de turma. Muitas tampinhas de refrigerante catadas no chão valeram a coleção completa dos copos plásticos lançados pela Pepsi com imagens dos jogadores. Até ganhei, nem lembro de quem, uma camiseta amarela (que inexplicavelmente guardo até hoje) estampada com o símbolo do Mundial – um bonequinho formado pela bandeira italiana com uma bola no lugar da cabeça – que usei feliz da vida até não caber mais em mim.

Só que a diferença fundamental desta Copa para a anterior, no meu caso, foi o fato de que procurei acompanhar com mais atenção os passos das demais seleções, sempre elegendo presunçosamente minhas favoritas. Encantado com os guias que vinham encartados nos jornais (olha mais um sintoma do futuro jornalista aí), aproveitava para identificar um ou outro jogador estrangeiro que já conhecia, como o alemão Lothar Matthäws, o italiano Roberto Baggio e o holandês Ruud Gullit. Até porque os brasileiros, desta vez, estavam bastante desacreditados pela imprensa. Não bastassem as críticas à duvidosa qualidade técnica de alguns jogadores e ao esquema tático esquisitão do treinador Sebastião Lazaroni, os sinais de que havia algo de podre no grupo eram cada vez mais frequentes. Um grande exemplo foi a foto oficial dos convocados, na qual os jogadores esconderam propositalmente o logotipo do patrocinador (o mesmo dos copos decorados) colocando a mão no peito.

Por estas e outras razões, a participação da equipe brasileira naquela Copa durou apenas quatro partidas. Vitórias magras contra Suécia (2×1), Costa Rica (1×0) e Escócia (1×0) deixaram diversas deficiências à mostra, mas de qualquer forma foi doloroso ver nosso time sucumbir diante da Argentina – uma equipe que, apesar de estar defendendo o título, somara tropeços contra Camarões e Romênia, classificando-se em terceiro lugar no seu grupo. Antes mesmo de completar as 24 figurinhas ou de usar todos os copos, o gol de Caniggia acabou com a expectativa, minha e dos meus colegas, reunidos para assistir ao jogo, de ver a Seleção campeã. E o domingo, que já estava meio sem graça depois que um pneu furado forçou Ayrton Senna a abandonar o GP do México após ter liderado quase 90% da corrida, azedou de vez.

Em 1986, a eliminação nos pênaltis tinha deixado em mim a sensação de uma derrota circunstancial, daquele tipo em que os dois times com potencial similar têm plenas condições de avançar, mas são forçados a decidir a sorte em cinco cobranças. Quatro anos depois, a história foi bem diferente. Nos minutos finais, por mais que torcêssemos por um golzinho salvador, o ânimo de cada um estava longe de suscitar uma virada. Cabisbaixos, quietos e tristes, simplesmente olhávamos passivos para a TV, meio que esperando aquele martírio terminar logo. Típico clima de fim de festa.

Sem o Brasil na Copa, continuei acompanhando os jogos, aproveitando as tardes livres que tinha naquela época. Torcendo, timidamente, para duas seleções. Em primeiro lugar, para a Itália, que jogava em casa, mostrava um bom futebol e tinha no gol o invicto Walter Zenga – cujo nome virou apelido, dado por mim, ao goleiro do time da minha rua, um menino que coincidentemente era a cara do defensor italiano. Por outro lado, acompanhava a evolução da Alemanha, de novo por causa da origem familiar. Com um futebol feinho, mas eficiente, os germânicos foram vencendo seus jogos e avançaram até a final. Já os italianos, depois de perderem a invencibilidade da defesa num gol do mesmo Caniggia que eliminara o Brasil, perderam, nos pênaltis, a vaga na decisão. Mais uma vez, eu veria uma final entre Argentina e Alemanha. Só que agora, sem nenhuma dúvida a respeito de qual time eu não queria ver levantando a taça de jeito algum.

Com um emblemático gol de pênalti, a Alemanha ganhou a Copa mais sem sal que já assisti, para alegria do meu dentista, filho de alemães radicados no Brasil. Àquela altura eu não imaginava, mas 1990 acabaria marcado intimamente pela saudade de todo aquele cenário no qual vivenciei o Mundial da Itália. Foi, inesperadamente, meu último ano na Pedra de Guaratiba, bairro pacato e afastado da zona oeste do Rio de Janeiro, no qual passei toda a infância. De forma que aquela Copa ficou, por assim dizer, como um flagrante congelado dos meus últimos traços de inocência. A partir dali, muita coisa ficou para trás: a casa onde cresci, o meu falecido pai, os amigos da minha rua, o colégio que eu tanto gostava e até alguns sonhos utópicos de criança, como ser piloto de Fórmula 1. Felizmente, alguns anos depois a mudança se revelou uma renovação necessária e fundamental para que outros sonhos, bem mais possíveis, pudessem virar realidade. E muitos deles, graças a Deus, já viraram. Que continue assim.

Faltam 50 dias para a Copa do Mundo da África do Sul! 

Daqui a dez dias, as memórias sobre a Copa de 1994, nos Estados Unidos.

  • Clique aqui para ler as memórias da Copa de 1986, no México.
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6 comentários

  1. Olá Alexander ,

    Tenho dois copos decorativos como esse que vc cita no seu texto, detalhe estão novos, nunca foram usados. Guardo com migo durante esses 20 anos e como estamos em tempo de copa gostaria de vende-los a um colecionador.

    Por acaso se tiver interesse de adquiri-los ou saiba de alguem interessado, pode entrar em contato nesse e-mail.

    joaquimnunes61@hotmail.com

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