Minhas Copas do Mundo: México, 1986

Faltam 60 dias para a Copa do Mundo 2010, que será disputada a partir do dia 11 de junho na África do Sul. A partir de hoje, sempre a cada dez dias, vou relembrar aqui no Fórmula Grün as Copas que acompanhei nestes quase 34 anos de vida, retratando nos posts aquilo que a memória registrou emocionalmente desde o primeiro Mundial que tenho lembranças, o de 1986. Confesso que lembro vagamente de algumas coisas de 1982, como as ruas decoradas e o onipresente mascote Naranjito pintado nos muros. Mas, como a Copa em si passou em branco, ela não entra na lista que inclui momentos totalmente antagônicos, como dois títulos conquistados pela Seleção Brasileira e duas dolorosas eliminações para a França.

Logo da Copa do Mundo de 1986, disputada no México

Três semanas depois do meu décimo aniversário, a Copa do Mundo de 1986 teve início no Estádio Azteca, na Cidade do México. O Brasil só jogaria no dia seguinte, mas evidentemente o ‘escrete canarinho’ e tudo o que girava em torno dele tomava conta do noticiário na TV. Duas coisas, em especial, não saem da minha memória. O espanto geral com a recusa do lateral Leandro em embarcar para o México, dias antes, em solidariedade ao corte do amigo Renato Gaúcho, e o caso da mãe que batizou seus recém-nascidos trigêmeos com nomes de jogadores da Seleção.

À medida que os dias foram passando, foi acontecendo algo que não me chamou atenção na época, mas que é sintomático se observado com os olhos de hoje: de alguma forma, a cobertura televisiva, não apenas sobre o time brasileiro, me encantava mais do que os jogos, propriamente ditos. Até os clipes feitos para celebrar as vitórias do Brasil, exibidos após as partidas, significavam entretenimento garantido. O ‘corredor polonês’ que foi ao ar depois que nosso time despachou a Polônia nas oitavas de final foi um dos mais engraçados.

Porém, quando se tem dez anos de idade e um quintal imenso, subir em árvores e brincar à exaustão acaba sendo bem mais legal do que ficar olhando para um aparelho de TV. Talvez seja por isso que não guardo muitas lembranças do que o Brasil fez dentro de campo naquela Copa na primeira fase. Mas sei que assisti a todas as partidas da Seleção, pois tinha sido presenteado com uma camiseta muito bonita, que imitava uma bandeira brasileira em diagonal (com o círculo azul cobrindo o ombro esquerdo), e fazia questão de usá-la nos dias dos jogos. Não tinha noção alguma da relação de forças dos times, e muito menos do histórico e da tradição de cada um. Torcer pelo Brasil era o que valia, àquela altura.

Sócrates e Casagrande, dois dos craques brasileiros no Mundial de 1986

Depois de vibrar com a goleada de 4 a 0 sobre a Polônia, que classificara o time para as quartas de final, a expectativa para o jogo contra a França só crescia a cada dia. Fiz questão de memorizar o horário da transmissão (como se precisasse) e liguei a TV para acompanhar a partida contra a França, que acabaria se tornando minha memória mais forte da Copa de 1986. Num jogo sofrido e muito disputado, com muitos craques em campo, o gol de Careca logo no início só aumentou as esperanças. Mas, apesar das inúmeras chances de definir a partida, os chutes e cabeceios dos atacantes brasileiros teimavam em não entrar. Foram duas bolas na trave, uma de Müller, outra de Careca. Situação que ficou mais embaraçosa quando Michel Platini, completando 31 anos de idade, balançou a rede do goleiro Carlos. Com o placar de 1 a 1 persistindo na prorrogação, a decisão foi para os pênaltis.

A defesa de Battes logo no primeiro chute, de Sócrates, já deixou o clima meio estranho. Até que, na quarta cobrança francesa, o mesmo Platini que empatara o jogo acabou isolando a cobrança. Com 4 a 4 nas penalidades, a igualdade voltava a campo. Só que, aí, o chute de Julio César foi parar na trave, Fernández marcou para a França e o Brasil acabou eliminado. Triste, resolvi dar uma volta pelo bairro. Foi quando, pela primeira vez na vida, achei que algo estava diferente por ali. As pessoas com poucos sorrisos, um clima de fim de feira, uma ou outra bandeira pendurada. Apesar do verde e do amarelo ainda estarem nos muros e nas bandeirolas, a alegria não era a mesma. Não tinha mesmo como ser.

No dia seguinte, ainda na ‘ressaca’ da eliminação na Copa, ganhava destaque no noticiário a atitude de Ayrton Senna, que fez questão de agitar uma bandeira brasileira em sua volta de comemoração após a vitória no GP dos Estados Unidos de Fórmula 1. Não me lembro de detalhes da corrida, mas não esqueço o gesto, de tão repetido que foi nos telejornais. Algo que se tornaria quase uma marca registrada nas outras vitórias do piloto.

Talvez a eliminação do Brasil tenha servido para aquele menino de dez anos perder um pouco da sua inocência, descobrindo enfim que existiam outras seleções em condições de ganhar a Copa. Mas, ainda assim, não conseguia torcer para nenhuma delas. Dias antes da final, ainda me perguntava qual seleção me deixaria mais feliz se ficasse com a taça. A Argentina, por ser sul-americana, ou a Alemanha, por causa da minha ascendência familiar. Não cheguei a uma conclusão. No fim das contas, deu Argentina, que tinha no time aquele tal de Diego Maradona, com quem nunca simpatizei.

Apesar da frustração em termos de torcida, a Copa do Mundo de 1986 serviu, na prática, para me despertar para o esporte de alto nível. Foi assim que a Fórmula 1, que eu gostava bastante, mas acompanhava de maneira irregular, passou a ser um ritual em grande parte dos meus domingos. Não por acaso, apenas duas semanas depois da final futebolística na Cidade do México, aconteceu o Grande Prêmio da Inglaterra, aquele que considero a primeira corrida que assisti por inteiro, absolutamente consciente do que estava acontecendo. E que rendeu até um relato emocionado aqui no blog em 2006, quando a prova completou 20 anos.

Por isso mesmo, apesar de ter acontecido naquele ano a primeira Copa da qual guardo lembranças, considero 1986 uma espécie de marco zero na minha relação com as competições automobilísticas. A partir daí, apesar de acompanhar com atenção todos os Jogos Olímpicos e Copas do Mundo que aconteceram nos anos seguintes, nem o futebol nem qualquer outro esporte conseguiu conquistar espaço semelhante ao do esporte a motor no meu coração. Tinha que dar no que deu, evidentemente…

Daqui a dez dias, as memórias sobre a Copa de 1990, na Itália.

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