Poetizando

Não ando muito afeito a homenagens ultimamente, confesso. Mesmo no aniversário de 50 anos de Ayrton Senna, há alguns dias, me restringi a publicar um vídeo bacana, sem muitas palavras a respeito do tricampeão mundial. Contudo, ao longo desta semana, me incomodou o fato de não ter citado aqui no Fórmula Grün dois nomes que merecem menções e reverências por tudo o que fizeram em suas carreiras.

Em primeiro lugar, é bom deixar claro que não esqueci que Renato Russo, assim como Senna, também faria 50 anos em 2010. Coisas de quem, desde cedo, se mete a vasculhar informações sobre seus ídolos. Bem moleque, ainda, já sabia que o piloto havia nascido num 21 de março; já o vocalista da Legião Urbana,  no dia 27. E achava uma tremenda coincidência que dois caras que eu praticamente reverenciava tivessem apenas alguns dias de diferença na idade.

No começo da adolescência, o sonho de ter uma banda existia dentro de mim mais ou menos com a mesma intensidade que o desejo de ser piloto de kart – ou de qualquer coisa motorizada que disputasse competições oficiais. A falta de grana não permitiu que eu experimentasse um kart antes dos 21 anos de idade. Mas a banda, pelo menos, conseguiu virar realidade. Pensando bem, apenas um esboço. Foram duas tentativas, e ambas não passaram das composições e dos ensaios. Apresentação, que é bom, nunca rolou. Mas ficaram, desta fase da vida, algumas composições e muitas, muitas letras. Com referencial estético, evidentemente, naquilo que Renato fazia à frente da Legião.

Uns bons anos depois, já trabalhando com jornalismo, as letras que me encantavam eram outras. Em vez de poemas, rimas e refrões, meus desafios passaram a ser lides, aspas, legendas e outros termos do texto jornalístico. Que, na televisão especialmente, costumam ganhar diferentes nuances – às vezes sutis, às vezes propositalmente impactantes. E uma das nuances mais difíceis desta área, não tanto pela forma, mas pelo contexto, é a poesia. E nisso, poucos alcançaram o talento de um sujeito chamado Armando Nogueira, lenda do jornalismo brasileiro.

Quis o destino que eu conhecesse Armando, já perto de completar 80 anos, durante minha primeira passagem pelo programa Redação SporTV, em 2006. Trabalhando na produção, eu me deliciava com suas tiradas e com sua forma inusitada de enxergar as coisas cotidianas do esporte diante das câmeras. Era um poeta em tempo integral, além de atencioso e gentil com aqueles que lhe dirigiam a palavra.

Por mais de uma vez, cogitei comprar um de seus muitos livros e pedir um autógrafo. Talvez houvesse um quê de constrangimento e timidez, presumo; mas acho que nunca tomei esta atitude, na verdade, por não ter lido qualquer uma destas obras antes de trocar as primeiras palavras com o mestre. Sentia que seria algo puramente mecânico, uma assinatura numa papel cuja alma não havia sido realmente capturada pelo alvo da dedicatória. Pode ser que, algum dia, eu me arrependa por não ter feito isso. Ainda mais agora, que Armando Nogueira nos deixou. O que me conforta é saber que ao menos tive a chance de ouvir, no ar e fora dele, algumas de suas histórias e lembranças.

O que me incomoda, mesmo, é olhar ao meu redor e não perceber no mundo de hoje a mesma poesia de tempos atrás. Como diz aquela canção da Legião, o futuro não é mais como era antigamente. Ou, quem sabe, eu esteja mesmo ficando velho…

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