Mil rabiscos

Não foi fácil, confesso, escolher o tema do milésimo post deste blog. Afinal, em pouco mais de quatro anos, já falou-se de tudo um pouco por aqui. Por isso mesmo, decidi celebrar o momento com um assunto que atrai muito minha atenção, mas que jamais havia ganho um post: o universo do graffiti.

A ideia de abordar a expressão máxima da arte urbana aqui no Fórmula Grün não é de hoje. Surgiu de tanto observar – das janelas de carros e ônibus ou andando a pé pelas calçadas – os desenhos criados com tinta spray nos muros das grandes cidades, mesclando cartoon, crítica social e poesia. Traços que, apesar de usarem a mesma matéria-prima, não podem nem devem ser confundidos com as pichações, cujas conotações políticas do passado deram lugar unicamente ao vandalismo (não é de hoje).

O Brasil é um dos principais expoentes da street art, tanto pela quantidade de trabalhos quanto pela qualidade dos artistas. Nesta forma de expressão tão globalizada, é muito comum a troca de experiências, referências e influências entre eles, mesmo em diferentes continentes. Por isso mesmo, nomes como os dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo – ou simplesmente Osgemeos – são conhecidos e bastante respeitados internacionalmente. A dupla já grafitou paisagens urbanas em diversas cidades dos Estados Unidos, Alemanha, Espanha e Inglaterra, entre outros países. Ao lado dos também paulistas Nunca e Nina, eles pintaram a fachada do castelo de Kelburn, na Escócia, uma construção com mais de 900 anos. Um trabalho ousado e espetacular, mesclando história e linguagem pop de forma única.

As conexões culturais de diferentes pontos do planeta através da tinta spray também dão o tom do trabalho do artista TiTo, criado em Nova Iorque e carioca de coração. Há alguns anos vivendo no Rio de Janeiro, ele vem colorindo as ruas da cidade maravilhosa com sua dupla de personagens Zé Ninguém e o cão vira-lata. Por pintar frequentemente as colunas de viadutos e os muros próximos ao terminal rodoviário, ele já foi chamado até de “Gentileza do século XXI” (saiba mais sobre o Profeta Gentileza neste post de 2007).

Afora os cartoons, seu traço repleto de realismo pode ser conferido nas fachadas das unidades da companhia de limpeza da cidade. Um trabalho rico em elementos urbanos e que valoriza a figura do gari. Tive o prazer de conhece-lo pessoalmente nos primeiros dias de 2010, quando ele executava um painel na esquina das ruas Figueiredo de Magalhães e Tonelero, em Copacabana. Outras obras do cara podem ser conferidas no site TiTo na Rua.

Quem também tem um trabalho muito legal – e não apenas nos muros – é a turma do grupo TV Kills, capitaneado por Ricardo Tatoo. Ele é responsável pelo projeto Grafite Cidadão, que atua em diversos pontos do Brasil ministrando palestras e oficinas, geralmente envolvendo pedagogicamente jovens e crianças no universo da arte urbana. É uma forma saudável e didática de desenvolver habilidades artísticas e, por tabela, fortalecer valores sociais.

A grife TV Kills, que também é estampada em camisetas, funciona como assinatura dos painéis com base de estêncil que esta galera pinta por aí, especialmente nos muros de São Paulo. Uma das séries mais legais é a chamada Heróis do Brasil, sempre estampando figuras importantes da nossa história acompanhadas do nome de um personagem dos quadrinhos. Chico Xavier é o Super-Homem, Oscar Niemeyer é O Demolidor, Betinho o Homem de Ferro, Chico Mendes o Justiceiro, enquanto Irmã Dulce personifica a Mulher Maravilha. Embora apareça sem um nome na imagem que abre este post, retratada num ponto de ônibus próximo ao metrô Ana Rosa, na capital paulista, o Santos Dumont tem toda a pinta de ser o nosso Homem-Pássaro. Mas a ilustração que mais me chamou atenção, claro, foi a de um certo The Flash. Bastante adequado em se tratando de Ayrton Senna…

Com tanto graffiti bom por aí, não por acaso São Paulo será sede da primeira edição da BIAR, a Bienal de Arte de Rua. O evento, previsto para acontecer no fim de 2010, tem a coordenação de grandes feras do assunto, como Rui Amaral, um dos pioneiros do graffiti no país. Mais informações podem ser encontradas neste site.

Aos que não enxergam o graffiti como uma forma de arte, este é um sinal bem claro de que o movimento vai muito além de um muro em branco e algumas latas de tinta spray.

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