De repente, Rock (new sensations)

Ao fim daquele domingo, 27 de janeiro de 1990, eu já me considerava um veterano em festivais de rock. Enquanto deixava a Praça da Apoteose, a pé, em meio a uma pequena multidão, olhava para cada um que cruzava meu caminho com toda a autoridade de quem, aos 13 anos de idade, caminhava carregando na memória e nos sentidos a intensidade daquela noite e também das duas anteriores. Algo que ia além do que havia experimentado em toda a vida. E muito, muito além do que poderia supor quando soube que estaria presente nos três dias daquela edição do Hollywood Rock.

Quem já passou dos 25 deve lembrar que, do fim dos anos oitenta a meados da década de noventa, diversas atrações internacionais vieram ao Brasil tocar em festivais de rock. A primeira experiência do gênero no país foi o Rock in Rio, em 1985. Depois dele, a empresa tabagista Souza Cruz patrocinou seu próprio festival a partir de 1988, sempre com um fim de semana no Rio de Janeiro e outro em São Paulo. Após a segunda edição do Rock in Rio, em 1991, o Hollywood Rock – inicialmente bienal – passou a acontecer anualmente, de 1992 a 1996. Quando começou a esbarrar em restrições publicitárias com ações ao ar livre, a empresa tirou o time de campo e manteve apenas os investimentos em festivais de jazz e de dança, todos em locais fechados. Que mais tarde também seriam extintos por razões parecidas, mas isso é outra história. Voltemos, pois, a 1990.

Quando a década começou, tudo o que eu queria era fazer 16 anos. Talvez o direito a voto da turma que foi às urnas eleger um presidente da república poucas semanas antes tenha influenciado de alguma forma nisso. Nunca fui uma criança levada, muito menos um adolescente transgressor, muito pelo contrário. No fundo, eu acreditava serenamente que atingir aquela idade me daria alguma independência, talvez certa maturidade, como se estas coisas viessem assim, num passe de mágica. Nada mais inocente, na verdade.

Uma das coisas que eu me via fazendo com 16 anos era ir a shows. Algo bem distante da minha realidade na época. Aos 13, eu era um menino fisicamente mirrado, morava num bairro distante com meu pai e já tinha noção de que o orçamento doméstico não dava para tudo. Aos fins de semana, ia visitar minha mãe (casada pela segunda vez) e ficava viajando nas centenas de discos que o meu padrasto mantinha no móvel da vitrola. Mas só olhava. Eu tinha os meus, que ouvia timidamente, mas nem de longe minha pequena coleção se comparava em quantidade e diversidade à dele.

Um dia, o cara notou meu interesse, sentou-se no chão comigo e escolheu a dedo um LP para me “apresentar ao rock”. Puxou um de capa branca, retirou o vinilzão com cuidado e colocou sob a agulha. Era o Kick, obra-prima do INXS. Nunca vou me esquecer de como pirei com o riff de Guns in the Sky, música que abria o álbum. Na sequência, clássicos como New Sensation, Devil Inside, Need You Tonight e Mediate fizeram o resto do serviço. Já mordido pelo bichinho do rock, foi um pulo para ouvir os demais. Por conta própria, conheci U2, Led Zepellin, Beatles, Rolling Stones, KISS, Smiths, Janis e muitos outros. Curti tanto aquilo que cheguei a catalogar todos os discos, batendo as informações numa máquina de escrever. 

Em vez de levar bronca por mexer nos discos, o interesse valeu-me um presente daqueles que pode se considerar de pai para filho. Duas semanas antes do Hollywood Rock, meu padrasto apareceu em casa com os ingressos nas mãos, anunciando que iríamos – ele, minha mãe e eu – acompanhar os três dias de shows. Mal conseguia acreditar naquilo. Quando o primeiro dia do festival chegou, eu era a euforia em pessoa. Por mais que tentasse disfarçar (só tentava, mesmo), foi difícil esconder a emoção que senti ao entrar na passarela do samba, convertida por um fim de semana no templo do rock. O palco, as pessoas, as câmeras, as luzes, tudo era um mundo diferente e fantasioso. A ficha demorou a cair, mesmo quando os shows já estavam rolando.

Não foi daquela vez que eu assisti ao INXS. Porém, o impacto das apresentações de artistas do naipe de Lobão, Barão Vermelho, Engenheiros do Hawaii, Marillion, Terence Trent D’Arby, Eurythmics, Tears for Fears e Bob Dylan mexeram comigo de uma maneira indelével. Ao fim da primeira noite, eu me sentia flutuando. Ao fim da segunda, renovado. Ao fim da terceira, então, indestrutível. Poderia ouvir qualquer coisa dali em diante, mas não hesitaria em afirmar para o resto da vida: “sou roqueiro”. 

Depois daquele Hollywood Rock, mantive a tradição de comparecer a pelo menos uma noite do festival em todos os anos seguintes. Porém, acabei não indo ao Rock in Rio II em 1991, perdendo assim a única oportunidade que tive de ver o INXS de perto. Em 1997, aos 21 anos, eu voltava de um evento da rádio onde eu trabalhava (rádio rock, claro), quando soube da morte de Michael Hutchence, vocalista da banda australiana. Foi o suficiente para me emocionar revendo, mentalmente, aquele moleque de 13 anos ouvindo o Kick absolutamente embasbacado. Praticamente o primeiro elo com tudo o que viria a conhecer posteriormente.

Nesta sexta, dia 29 de janeiro de 2010, Hutchence faria 50 anos. Justamente na mesma semana em que meu primeiro festival completa 20 anos. Uma dessas coincidências que o destino nos apronta de vez em quando. E que, no fim das contas, faz todo o sentido. Afinal, não há mesmo porque separar estas duas lembranças.

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3 comentários

  1. q isso kra acabei de ler e me emocionei, tem certas coisas na vida q quando tivermos oportunidades não podemos deixar de fazer, como vc disse vc perdeu a unica oportunidade de ir nesse show… mas tá valendo pq vc aproveitou mto e mais maneiro é vc contar isso dessa maneira falando um pouco da sua vida pessoal e da primeira vez q foi num festival de rock de tal grandeza.

    abração kra espero ir com vc em algum show de rock ainda!!!

  2. Grande KR-Grun!

    Não sei se você falou da chance por outros motivos, mas se foi por falta de show deles no Rio, o INXS fez show na Gávea também (se não me engano em 1993), eu lembro que fui. Foi um show junto ao Soul Asylum.

    Abs.

  3. Texto sensacional, que nos faz voltar a lembranças muito gostosas e as vezes esquecidas. Se não pude ver Queen, Led Zeppelin e tantos outros, ir a um show do Iron Maiden sozinho com 14 anos, ver Metallica e Macca em 2010 e por que não, Chico Buarque, tornaram minha vida musical um pouco mais completa…

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