Barrichello Kart Day

Alexander Grünwald durante a final do Barrichello Kart Day / Foto: Carsten Horst

O dia começou corrido. Logo cedo eu já estava preparando os últimos detalhes para mais uma gravação do programa Linha de Chegada, do SporTV. Todos já estavam no estúdio quando o convidado, Rubens Barrichello, chegou por lá, demonstrando-se bem-humorado e disposto a responder com franqueza tudo o que lhe fosse perguntado. No segundo bloco do programa comandado por Reginaldo Leme, Rubinho recebeu um troféu feito pelo artista Paulo Solaris em referência à centésima vitória brasileira na Fórmula 1. Uma obra de arte, literalmente, que abrilhantou ainda mais aquela gravação.

Alguns minutos depois, tivemos o primeiro contato fora do estúdio. Enquanto descíamos pelo elevador – Rubens, o troféu e eu – até a garagem, conversamos rapidamente sobre o programa e falamos do evento que aconteceria nas próximas horas, organizado pelo próprio Barrichello. “Estarei lá”, disse eu, percebendo a visível alegria do piloto, composta por uma série de motivos: a homenagem no programa, o momento ascendente no campeonato mundial de Fórmula 1 e também com o evento que realizaria naquela tarde.

Reginaldo Leme e Rubens Barrichello com o artista Paulo Solaris, autor do belo troféu em homenagem à centésima vitória brasileira na F-1
O artista Paulo Solaris e sua bela obra, entre Reginaldo Leme e Rubens Barrichello, durante o 'Linha de Chegada'

Antes de fazer como Barrichello e pegar o rumo de Cotia, cidade próxima a São Paulo, tive que passar na emissora. Um ‘pit stop’ para encontrar a equipe da TV que iria comigo para o kartódromo da Granja Viana, fazer a cobertura do I Barrichello Kart Day: a repórter Laura Fonseca, o cinegrafista Ian Barcellos e o assistente Jair ‘Mosquito’. Que, fechado por um caminhão fora de faixa, foi obrigado a passar direto na saída para Cotia na rodovia Raposo Tavares, o que atrasou ainda mais nossa chegada à pista.

Meus bons amigos

Ao chegarmos no kartódromo, ainda no estacionamento, deu para notar pelas gargalhadas que vinham da área dos boxes que o alto astral dava o tom do evento. Com o intuito de estreitar os laços com a imprensa especializada, o piloto brasileiro criou o Barrichello Kart Day, um dia numa pista de kart para que o pessoal da imprensa sentisse na pele um pouco do que ele sente na Fórmula 1, ganhando dicas de pilotagem do próprio Rubens. Foram convidados menos de 40 jornalistas, divididos em duas baterias classificatórias, que dariam aos melhores a chance de correr a grande final.

Encontrei, claro, toda a turma das revistas, jornais, rádios, sites e TVs, todos vestidos em belos macacões pretos, oferecidos pela assessoria do evento. Lembrando que parte destes jornalistas compete regularmente comigo na FIAk, torneio onde profisisonais de imprensa que cobrem automobilismo medem forças mensalmente em karts de aluguel.  Porém, uma vez na Granja, tratei de separar na marra o Grün jornalista do Grün ‘piloto’. Eu estava entre os convidados que teriam o direito de correr, mas antes precisava produzir duas matérias, uma para o Linha de Chegada e outra para o SporTV News.

A galera reunida para a foto era só alegria; enquanto isso, eu tentava entrar a todo custo num macacão tamanho 52
A galera reunida para a foto era só alegria; enquanto isso, eu tentava entrar a todo custo num macacão tamanho 52

A foto da turma reunida, com Barrichello ao centro, foi tirada enquanto eu estava numa sala, procurando um macacão que coubesse em mim. O maiorzinho que havia sobrado era um 52, que levou 15 minutos para ser colocado e me fez respirar com certa dificuldade nos primeiros momentos. Menos mal, no entanto, que o da repórter estava adequado. Era ela, afinal, que ia aparecer no vídeo, não eu.

Professor Rubens

“Usa só o da direita, esquece o da esquerda e tenta virar o volante menos possível, ok? É um desafio!”

Com estas palavras, empunhando o microfone do SporTV, Rubens Barrichello apresentou um kart à Laura, que não parecia muito à vontade em meio a tantos marmanjos dispostos a voar pelo asfalto da Granja Viana. Eu já estava de macacão, mas continuei de pé, junto ao câmera, durante todo o período em que Rubinho conversou com ela. E assim foi até nossa representante sair dos boxes, atrás dos demais jornalistas da segunda classificatória.

Todos já estavam abrindo suas voltas rápidas quando o diretor de prova Diógenes, velho camarada, se aproximou sorridente e de braços abertos, perguntado se eu não iria para a pista. Obediante, sentei no kart, coloquei luvas, balaclava e capacete num piscar de olhos. Motor ligado, acelerei para entrar mais uma vez naquela pista maravilhosa, cujo asfalto ia aos poucos se dourando com o sol da tarde. Depois de sentir as reações do carrinho 19 por algumas curvas, deixei o povo da frente distanciar um pouco, para ter pista livre e abrir aquela que seria minha única volta lançada no qualify.

Eis que, na entrada do retão, sinto um totó na traseira do kart, como se o piloto atrás de mim quisesse me chamar a atenção. Olho para o lado, procurando um colega, e me deparo com uma figura vestindo um macacão branco da Brawn GP, com aquele famoso capacete com uma larga faixa laranja, me olhando nos olhos e fazendo um sinal de positivo. Sim, era Rubens Barrichello, emparelhado comigo naquele retão em descida. Que, insistente, continuou somente com uma das mãos no volante, fazendo aquele mesmo sinal, até obter outro em resposta.

E assim foi. Tão logo devolvi o ‘tudo bem’, deixei ele passar e colei na sua traseira, tentando aprender um pouco nas curvas seguintes. Instantes nos quais ia deixando, enfim, o jornalista do lado de fora do macacão. Agora era eu, ele e a pista.

Sai da frente!

Com 14 karts no grid formado com Barrichello na pole, me surpreendi ao ser posicionado na quarta fila. Afinal, o oitavo tempo não era uma marca tão ruim para quem havia conseguido dar apenas uma volta lançada. Largando por fora, comecei a pensar no que daria para fazer naquela corrida. As prioridades eram, na ordem, fazer uma boa largada, acompanhar o ritmo dos primeiros colocados e, por fim, conquistar uma das vagas para a final.

A largada na bateria classificatória: Rubens à frente dos selvagens, incluindo o do kart 19
A largada na bateria classificatória: Rubens à frente dos selvagens, incluindo o do kart 19

Quando a bandeira verde foi agitada, consegui me lançar bem, passando entre dois concorrentes. Lá na frente, Rubens diminuiu o ritmo assim que fez a primeira curva. Enquanto nós, brações da imprensa, íamos nos espremendo de todo jeito para ganhar posições, o dono da centésima vitória brasileira na Fórmula 1 tratava de ficar para trás deliberadamente. Na descida, percebi Rubens lento à minha direita, antes do contorno da curva 2. Deu tempo até de dar uma olhadinha e perceber os olhos dele arregalados, provavelmente não acreditando nas barbaridades que cometíamos a alguns centímetros de seu kart.

As primeiras duas voltas foram disputadas palmo a palmo com o brother Bruno Vicaria. De óculos escuros, guiando feito um louco no kart 5, ele me ultrapassou e foi ultrapassado algumas vezes, até que consegui deixá-lo para trás e segurar a posição. Quando Bruno errou numa curva lenta, ganhei um pouco de sossego e tentei descontar a diferença, já acentuada, para os quatro primeiros. Já nesta altura, o acelerador começou a me dar alguns sustos, travando de leve em determinadas curvas. Mas nada que me impedisse, aparentemente, de andar forte, de apertar ainda mais o ritmo.

Até que, do nada, sem sequer perceber sua aproximação, fui superado por Rubinho. Assim, num passe de mágica. Ele já estava, eu soube depois, acompanhando de perto o pega Grün-Vicaria. Quando a briga por posição se resolveu, ele simplesmente botou de lado e foi embora, de maneira absolutamente desconcertante para o ‘piloto’ do kart 19. Que, sabe-se lá de que jeito, conseguiu manter o recordista de participações na Fórmula 1 ao menos em seu campo visual.

Os "feras" Bruno Vicaria e Alexander Grünwald disputando posição à frente de Rubens Barrichello
Os "feras" Bruno Vicaria e Alexander Grünwald disputando posição à frente de Rubens Barrichello

O lado bom de ser ultrapassado por Rubens era ter referências de seu traçado, de seus pontos de frenagem, bem ali à minha frente. O que, automaticamente, fez com que eu ganhasse alguns décimos em zebras que podiam ser cortadas, curvas que não pediam tanta intensidade no freio, entre outros segredinhos. Lá ia eu, todo pimpão. Uma volta atrás dele, muito aprendizado, uma beleza. Só que logo na segunda vez que contornava o ‘bacião’ – uma curva em descida também chamada de ‘Eau Rouge’, em alusão ao famoso trecho do circuito belga de Spa-Francorchamps – seguindo Barrichello, o kart não obedeceu minha catada no freio. Quer dizer, até obedeceu. Só que o acelerador, desta vez, havia travado definitivamente, mantendo a velocidade praticamente inalterada.

Naquele momento, foi o tempo de olhar para o pedal, olhar para frente, olhar para o pedal de novo e pensar rapidinho no que fazer. Rubens Barrichello estava uns dez metros à minha frente, mas eu vinha descendo o bacião na toda, enquanto ele tangenciava pra fazer a curva fechada em subida que vinha na sequencia. Não tive muita opção. Entre a possibilidade de ‘dar no meio dele’, como se diz, ou jogar o kart na grama, nem cogitei outra hipótese. Saí da pista na toda, parando na grama. Mas deixei Rubens Barrichello inteirinho, feliz e bem disposto para continuar em sua busca pelo título mundial de Fórmula 1.

Quando retornei ao asfalto, pisei suavemente no acelerador, que parecia ter voltado ao normal. Pura ilusão. Na retomada da curva seguinte, ele travou mais uma vez, fazendo o kart rodar de maneira patética no próprio eixo. Isso me forçou a adotar, dali em diante, uma tocada bem mais conservadora, para garantir ao menos uma vaga na final. E ela veio, nos acréscimos, graças a uma desistência de alguém que chegou à minha frente nesta bateria classificatória – vencida, é claro, por Rubens Barrichello. Foi bom saber que o companheiro Ivan Moré, do Globo Esporte, também estava garantido entre os finalistas.

Guiando durante a bateria classificatória, pouco depois de tirar o anfitrião da pista
Guiando durante a bateria classificatória, pouco depois de quase tirar o anfitrião da pista

Como é que se faz, mesmo?

Assim que terminou minha classificatória, todos os jornalistas se reuniram ao redor de Barrichello para ouvir as dicas do piloto, que tinha conferido de perto nossas manobras. Um ótimo momento para gravar a passagem, aquele trecho da matéria onde o repórter aparece falando para a câmera. Com o sinal de positivo feito pelo Ian, que enquadrava a turma recebendo conselhos ao fundo, Laura começou a falar. Mas como havia o risco de Rubinho sair daquela posição a qualquer momento, tratei de ir lá para o meio da rapaziada e fiz também uma pergunta. Além de garantir que ele aparecesse na TV do jeito que a gente queria, aprendi um pouco mais sobre o traçado ideal na entrada do retão, um ponto onde eu perdia tempo em relação aos demais. Dois coelhos numa só tacada…

Gravada a passagem, não deu outra. Rubens pediu licença e foi falar com alguém, já nos preparativos para a bateria final. Como ainda havia trabalho a fazer, fomos atrás dele para que a Laura pedisse, em frente à câmera, sua avaliação sobre a corrida dela, na qual largou em último lugar e chegou na mesma posição. Um prato cheio para mais um registro bem-humorado e relaxado de Rubinho naquela tarde: “Está vendo só? Não perdemos nada!”, disse ele, antes de soltar uma gargalhada olhando para a lente do Ian.

Missão cumprida no trabalho, hora de voltar à pista para a decisão.

Os jornalistas-pilotos conferem seus tempos de volta antes dos conselhos de Rubens Barrichello
Os jornalistas-pilotos conferem seus tempos de volta antes dos conselhos de Rubens Barrichello

Acelerando ladeira abaixo

Correr duas provas seguidas não é fácil. Tivemos poucos minutos de descanso em relação ao pessoal que correu na primeira classificatória, mas como o sol ia baixando, não havia condições de esperar mais. E lá fomos nós, teoricamente os 12 melhores daquele dia, para a pista mais uma vez. Logo no início do qualify, notei que o kart 8 que estava em minhas mãos era melhor de motor do que o 19 que eu havia guiado da bateria classificatória. Parecia um bom sinal.

Dei risada quando notei que tinha classificado novamente em oitavo lugar. A experiência da bateria classificatória, menos de uma hora antes, poderia ser válida. Afinal, eu largara relativamente bem, e poderia tentar surpreender alguns dos adversários à minha frente, a maior parte deles pertencente à primeira classificatória. Desta vez, Rubens não correu. Foi lá para a frente dos karts e agitou pessoalmente a bandeira verde.

Quem estava imediatamente à minha frente, largando na sexta posição, tentou uma largada completamente kamikaze para dentro, jogando para cima do pessoal da fila ímpar. Isso fez com que se abrisse um clarão no meu caminho, ajudando ainda mais minha tática de me manter por fora, acelerando. Em alguns metros, saltei do oitavo lugar, fiz a primeira curva e iniciei a descida em quarto. Só iniciei. Antes que conseguisse aprumar meu kart, senti um totó bem na quina do pneu traseiro direito. Como já estava em alta velocidade e em descida, nada pude fazer. Saí rodopiando e parei ao contrário, com a frente apontada para a subida.

Correndo sozinho no fim de tarde, depois de ser jogado para último na largada da bateria final
Correndo sozinho no fim de tarde, depois de ser jogado para último na largada da bateria final

A partir daí, fiz o possível e o impossível para descontar um pouquinho que fosse em relação aos demais concorrentes, que abriram uma semana de vantagem logo nos primeiros segundos de volta. Guiei forte, inclusive jogando propositalmente com a traseira do kart em alguns pontos da pista, naquela técnica de escorregar nas curvas de baixa. Mesmo assim, pouco pude fazer. Terminei a prova final absolutamente exausto, numa discreta oitava posição. Mais uma vez, atrás do Ivan Moré, o que causou inevitáveis piadinhas na redação algumas horas mais tarde.

Só que, na real, o resultado só fez alguma diferença na hora em que vi os troféus destinados aos cinco primeiros. No mais, o que valeu, mesmo, foi o presente inestimável de dividir uma pista daquelas com um dos pilotos mais bem sucedidos da história da Fórmula 1, ganhando dicas e até totós marotos dele. Momentos que ficarão na memória, certamente com mais intensidade do que as rodadas, as dores nos braços ou o incômodo do macacão apertado. Quando alguém lembrar daquele primeiro Barrichello Kart Day, disputado no distante ano de 2009, vou levantar o dedo e dizer com orgulho: “eu estava na pista; e foi o maior barato!”

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5 comentários

  1. Caro Grun,

    Vc é muito brilhamte nas suas palavras e consegue passar a emoção sentida.São momentos inesquecíveis,mas foi bom deixar o Rubinho bem para formula 1, mesmo tendo que abrir mão de momentos impares para todos.
    Bjs

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