Peça rara

No mesmo dia em que os fãs de todo o mundo relembravam os 15 anos sem Ayrton Senna, a perda de outro personagem bem menos famoso também fez aniversário. Uma figura muito popular em Vila Isabel, conhecido bairro da zona norte no Rio de Janeiro, especialmente entre a comunidade artística da região. Há dez anos, a Vila de tantos poetas, boêmios e loucos se despedia do lendário Luiz Roberto Peçanha. Ou, simplesmente, o Peça.

Chamado pelos colegas de escola pelo apelido “mosquito elétrico”, Peçanha passou boa parte de sua vida entre idas e vindas da casa de seu pai, na rua Torres Homem. Casa que fica na mesma vila onde vive, até hoje, o ator Orlando Drummond, mais conhecido pelo personagem humorístico “Seu Peru”.

Muito magro e de cabelos enrolados, Peça andava sempre pelas ruas do bairro em passadas largas, balançando os braços e com os ombros quase colados às orelhas. Impossível não reconhecê-lo à distância. Sua forma pouco comedida de puxar conversa também era clássica. Bastava esbarrar com um amigo para desandar a falar sobre qualquer assunto fora do convencional. Qualquer um, mesmo. Inteligentíssimo, tinha papo para uns 3 dias para temas-cabeça como filosofia, astronomia, sociologia, parapsicologia etc etc etc.

Na juventude, ele cantava e compunha. Foi desta forma que participou, em 1986, do filme “Com licença, eu vou à luta”. Foi até vocalista de uma banda chamada Black Zé, que nos anos setenta se dizia o “Led Zeppelin carioca”. Seu codinome era Roberto Planta – nada mais apropriado, diga-se de passagem. O grupo se dissolveu anos depois, mas deixou gravado seu único LP, registrado de forma independente. O vinil eternizou a voz do nosso amigo em versos como o da música que dá título ao disco, Só para os loucos, só para os raros:

Capa do disco "Black Zé", lançado de forma independente / Foto: reproduçãoColhendo cogumelos na varanda de cristal
Avenidas paralelas, rua em forma de espiral
Pisando sempre em flores num pedaço de universo
Espinhos do destino fazem parte dos meus versos
Só para os loucos, só para os raros

Louco e raro, o Peça era uma figura realmente ímpar. Conseguia, ao mesmo tempo, ser um viciado em corridas de cavalos (nas quais, volta e meia, perdia as economias), mas que entendia barbaridade do sobe e desce do mercado financeiro (onde se recuperava dos prejuízos com as apostas). Praticamente não trabalhava; no máximo, vendia uns incensos para completar o orçamento. Morreu, ironicamente, no dia do trabalho, em 1999, vítima de uma infecção pulmonar aguda causada pelo fumo. Tinha apenas 51 anos.

Tive o prazer de conhecer Peçanha pessoalmente e de compartilhar de seu gosto musical apuradíssimo e de sua visão pioneira sobre a Internet e os direitos autorais. Algo que só começou a ser debatido muito tempo depois, quando ele já não estava por aqui.

Pensando bem, acho que ainda está. Com sua energia, seu bom humor e seu andar peculiar, visitando as mentes dos artistas em cada esquina de Vila Isabel.

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3 comentários

  1. Alexander,

    É com grande prazer que vejo o trabalho do Black Zé aqui no site. Esta banda foi formada aqui em Petrópolis e posso dizer, que participei de alguma forma dela, já que um dos guitarristas era meu primo, Gulhermo (Bill Valley). É claro que eu apenas assistia aos ensaios, eu era muito pequeno na época. Bem, meu primo partiu em 2007 (serão 2 anos de sua ausência em 17 de maio) mas creio que ele ficaria muito feliz em saber que o trabalho dele esté finalmente sendo conhecido (e reconhecido). Legal, fiquei muito feliz. Abraços Blackzequianos !!!

  2. Que legal teu depoimento, Roberto! Fico feliz em saber que o legado do Black Zé permanece entre os que conheceram este som e esta turma. Obrigado pela visita e pelo comentário, volte sempre!

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