Vitória por água abaixo

A previsão do tempo costuma mesmo ser milimétrica na Europa. A de Nürburgring, neste domingo, foi certeira nos segundos, assim como foi a do GP da França de 1999. E, quando vem água, a Fórmula 1 se transforma. A tal ponto que vimos, por exemplo, o estreante Marcus Winkelhock fazer história. O alemão da Spyker classificou em último, tomando um segundo do companheiro. Resolveu largar dos boxes e, com os pneus certos, ultrapassou Kimi Raikkonen na primeira volta para liderar as suas primeiras sete voltas na categoria. Por um instante, cheguei a acreditar que a aposta do Pandini ia se concretizar.

A chuva veio com menos de um minuto de prova, mas Felipe Massa não pode reclamar da sorte neste GP europeu. O pole Raikkonen fez uma lambança no início, perdeu a entrada do box e ficou lá para trás calçado com pneus lisos. Para completar, abandonou no meio da prova. Hamilton andou com uma nuvenzinha sobre o cockpit durante todo o fim de semana e sequer pontuou. As BMW, que pintavam como ameaça, se acharam na segunda curva e desceram ladeira. Massa tomou a posição de Alonso na largada, liderou três quartos da prova e poderia ter descontado ainda mais a desvantagem no G-4.

No entanto, o brasileiro ficou no quase. Mostrou, de novo, que a chuva não é seu forte. Ao ser ultrapassado de forma limpa, deu uma “schumacada” para cima do espanhol, que dessa vez não se intimidou. O clima azedou na sala de estar antes do pódio, numa clara demonstração de que ser bem sucedido hoje em dia na F-1 envolve uma série de fatores além da pilotagem. Inclusive uma dose de talento diante das câmeras.

O tempo fechou com uma discussão invocada de um brasileiro e um espanhol... em italiano!
O tempo fechou com uma discussão invocada de um brasileiro e um espanhol... em italiano!

Fernando Alonso, de vez em quando, faz jus ao salário e ao currículo. Acelerou pacas na classificação e seria pole facilmente se não tivesse que controlar uma derrapada monstruosa na volta final. Assimilou bem a chuva nos ajustes de suspensão e guiou de maneira segura todo o tempo. O dia de cão vivido pelo companheiro foi a cerejinha do bolo para o bicampeão, que se mantém no páreo pelo tri.

Lewis Hamilton estava mesmo com a cota de azares acumulada. E descontou todos neste fim de semana. Quebrou, bateu, internou, errou, atolou, atrasou, mas não perdeu o velho hábito de andar entre os primeiros – mesmo com uma volta de desvantagem. Só que aquela guinchada, mesmo dentro do regulamento, foi um tremenda forçada de barra. Vale tudo para termos o rapaz dando espetáculo?

O homem que mais se livrou das “posições perigosas” nos últimos quinze anos também esteve em Nürburgring. Michael Schumacher, que era mais captado pelas câmeras do que o céu cinza de Alemanha, arrumou uma forma de subir ao pódio: foi todo pimpão, de caubói, entregar o troféu a Jean Todt. Aí veio a chuva e lhe restou dar a taça a Ron Dennis, sem antes fazer uma senhora cara de bunda. A propósito: inventaram um “S do Schumacher” na pista alemã? Tsc, tsc, tsc… Parece que não descobrimos, ainda, até onde vai a ‘vontade de ser Senna’ desse alemão.

As caras dos caras dizem tudo...
As caras dos caras dizem tudo...

Rapidinhas:

– As duas Red Bull aproveitaram o início confuso de prova e ficaram entre os primeiros. Mas não era fogo de palha. Webber, o leão de treino, foi ao pódio saindo de sexto. Coulthard, que largou em vigésimo, saiu no lucro com o quinto lugar.

– A Toyota continua a de sempre: faz um bonito, vai à superpole, mas na corrida é um desastre.

– Heidfeld jogou por água abaixo uma grande chance da sua equipe subir ao pódio, quem sabe até com os dois carros.

– Continua triste a situação na Honda. Button abandonou estampando os pneus na segunda volta, quando era o terceiro. Barrichello, que largou de novo à frente do companheiro, tomou uma panca na primeira volta, saiu da pista, mas levou o carro até o fim, em antepenúltimo. Não se sabe quem está pior.

– Wurz quase no pódio de novo? Corrida maluca é com o grandão da Williams!

– Liuzzi já virou pule de dez nas apostas de ‘primeiro abandono’. O bolão já está perdendo a graça.

– A aquaplanagem de Sutil, deslizando por quase dez segundos, foi uma aula de física a 250km/h. As rodas travadas sobre a linha d’água davam o tom da agonia vivida pelo piloto da Spyker.

– Como a chuva jogou pelos ares a obrigatoriedade de botar pneus duros ou macios em algum trecho da prova, os pilotos guiaram a maior parte do tempo no limite, com cada um usando o composto que mais se enquadrava na situação. Bonito de ver.

Que venha Hungaroring, então. Se possível com muita chuva, como no ano passado. Fica muito mais divertido, sem dúvida.

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