Lembrando Marco Campos

Acidente de Ernesto Viso na prova da GP2 na França em 2007 / Foto: Reprodução TV, retirada do Blog do CapelliMuitos blogueiros lembraram de Marco Campos no sábado passado. O acidente assustador do venezuelano Ernesto Viso, que voou sobre um adversário na etapa francesa da GP2 Series, por pouco não tirou a vida do jovem piloto. A pancada sobre a mureta foi muito parecida com a sofrida pelo brasileiro em 1995, na última prova da F-3000 daquele ano. Com uma coincidência triste: era o mesmo autódromo e, infelizmente, a mesma mureta.

Viso teve sorte. Já de cabeça para baixo, o carro bateu no concreto bem no meio do cockpit, na altura das pernas do piloto. Ele sofreu um choque muito forte, mas sem lesões graves. Porém, o que houve com Marco Campos foi ainda pior. Ele aterissou também invertido, com a mureta atingindo em cheio seu capacete.

Há dois anos, quando a morte de Marco completou uma década (nessas horas percebo como o tempo voa), os leitores do site GP Total voltaram ao assunto. E isso motivou uma crônica emocionada do jornalista especializado Geraldo Tite Simões. Vale dar uma lida, para saber um pouco mais sobre o piloto.

O efeito da coluna foram mais cartas (ok, e-mails) dos leitores. Impulsionado por minhas lembranças, escrevi também. O texto, escrito originalmente em 02 de junho de 2005, é reproduzido abaixo na íntegra.

Já estava pra comentar isso há algum tempo aqui no GP Total. A morte de Marco Campos, tão discutida entre os leitores, e que agora ganhou uma comovente coluna do Tite, é um fato do qual nunca vou me esquecer.

Na época do acidente eu estava concluindo um curso profissionalizante de publicidade no Liceu de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro. Além de estar envolvido até o pescoço com o jornal publicado pelo grêmio estudantil, eu já tinha ficado involuntariamente famoso no colégio todo por causa de discussões técnicas, mercadológicas e até filosóficas que tinham sido provocadas por determinados professores, querendo usar a morte de Senna e sua repercussão para apimentar as aulas.

Marco Campos na Fórmula 3000, em 1995 / Foto: GP TotalÉ impressionante como nessas horas todo mundo é especialista, ou simplesmente se acha no direito de contextualizar de forma oblíqua temas tão incompatíveis quanto sabão em pó e coluna de direção.

Isso contribuiu para que muitos alunos de outras turmas que gostavam verdadeiramente de corridas (ao contrário de alguns entusiastas que pararam de assistir F-1 após Ímola-94) se aproximassem naturalmente, para que pudéssemos conversar sobre automobilismo sem nenhum professor pra encher o saco.

Um desses alunos se tornou um grande amigo, chegando a ir diversas vezes comigo ao Autódromo de Jacarepaguá ver provas nacionais e internacionais. Na época, ele também cursava publicidade, uma turma abaixo da minha. Por causa da idade, prestávamos muita atenção nos pilotos das fórmulas de acesso, e logicamente, o Marco chamava muita atenção. Era uma das nossas apostas para a Fórmula 1.

Fiquei sabendo do acidente ainda no domingo, mas naquela altura só se falava em coma. A morte só foi confirmada algum tempo depois, e ao que parece a TV não noticiou isso no mesmo dia.

Lembro como se fosse hoje quando meu amigo me encontrou no dia seguinte na entrada do Liceu, sério e calado, com um jornal enrolado na mão. Ele me chamou e, em vez de subirmos para a aula, fomos direto para a biblioteca, onde ele abriu O Globo sobre a mesa, direto na página de esportes. O silêncio daquele lugar ficou ainda mais denso. Frio, triste, desesperador. Marco Campos estava morto.

A diferença de idade entre Marco e eu era mínima, coisa de um mês e meio. Certamente a morte de Senna tinha sido um baque e tanto, mas ver acontecer isso com um cara da minha idade, cheio de sonhos e coisas pra conquistar, foi um golpe psicológico muito forte. De certa forma, eu me via como aqueles jovens, lutando para chegar lá, dentro das adversidades características de cada profissão. Tanto na publicidade como no automobilismo, vivíamos no dia-a-dia ambientes competitivos, desafios técnicos, pressão por resultados, e muitas vezes tínhamos simplesmente que confiar em nossos talentos individuais para fazer a diferença. Guardadas as proporções, nossas ambições profissionais tinham muito em comum.

Lá se vão dez anos. Não sou mais um garoto, e a partir de responsabilidades profissionais e pessoais, sigo conquistando pequenas vitórias todos os dias; coisas que me fazem crescer, seja como publicitário, seja como homem. E confesso que devo um pouco desta determinação, desta vontade de crescer sempre, àquele rapaz que se foi deste mundo de maneira tão estúpida.

Para mim, Marco Campos continua por aqui. Vencendo, mostrando do que é capaz. Todos os dias.

* * *

Lendo o texto novamente, fica ainda mais viva, para mim, a lembrança daquela época.

Pouco depois do acidente, concluí o curso e dei início a uma carreira de dez anos como publicitário, que só foi encerrada quando decidi dedicar-me integralmente ao jornalismo. Meu amigo vive atualmente em Londres, trabalhando no mercado financeiro, e mantemos contato na medida do possível. Vida que segue, pois.

Quanto ao acidente de Viso, só me resta agradecer a Deus por não ter acontecido outra tragédia. Principalmente pelo piloto, obviamente, mas também por mim. Eu estava trabalhando naquela transmissão e, intimamente, associar estas duas lembranças seria uma triste e dolorosa coincidência.

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4 comentários

  1. Alex, o Marco Campos não morreu no mesmo dia do acidente. Teve morte cerebral, sim, mas a morte, de fato, ocorreu um ou dois dias depois, se não me engano, quando os pais dele pediram aos médicos para que desligassem os aparelhos.

    Agora, “golpe psicológico muito forte”? Meio forçado isso… O cara sequer era teu parente.

  2. Não acho forçado, não. As pessoas lidam de maneira muito particular com notícias como essa. E eu senti muito, muito mesmo, ao ver aquilo acontecendo com um cara da minha idade. E mais: um cara que estava às portas da F-1, um lugar com o qual todos nós, jornalistas especializados, sonhamos estar em algum momento de nossas vidas.

    Se o seu grau de sensibilidade não te fez encarar dessa forma, que bom para você. Mas não é preciso que alguém seja meu parente para que eu não sinta a sua morte.

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