Vozes do Brasil

Vinte de maio de dois mil e sete. Este foi um domingo histórico para o esporte brasileiro. Em cantos distintos do país, marcas estabelecidas por grandes atletas do passado foram, enfim, atingidas. Ambas em estádios lotados.

No Mangueirão, em Belém, Jadel Gregório cravou 17m90 no salto triplo e conquistou o novo recorde sul-americano. Que já durava 32 anos, desde que o inesquecível João do Pulo saltou 17m89. Em São Januário, no Rio de Janeiro, Romário bateu um pênalti a favor do Vasco da Gama e chegou ao milésimo gol. Feito que o Rei Pelé conseguiu em 1969, também batendo um pênalti, no Maracanã.

Dois lances, dois feitos consideráveis, que foram merecidamente vistos, revistos, analisados, comentados. Mas que, na pressa do hard news, já viraram história. Não sem antes ficarem guardados na minha mente por causa dos momentos que vivi na periferia dos acontecimentos, por assim dizer.

Eu estava de plantão naquele domingo. Depois de produzir a transmissão das três provas do Mundial de Motovelocidade, escrevia o texto sobre a MotoGP para o SporTV News, quando a redação toda se virou para um dos aparelhos de TV. Era Jadel batendo o recorde, acompanhado da narração vibrante do camarada João Guilherme. João, além de colega de trabalho, também foi meu colega de faculdade. Gente boníssima e, claro, uma figuraça. Fiquei muito feliz por ele naquela hora.

Pouco tempo depois, com o off devidamente escrito, fui almoçar. Mesa cheia, mais ou menos dez pessoas, num clima excelente. Entre as histórias e as risadas que vinham de todos os cantos, estava Lucas Pereira. O narrador escalado para fazer, naquela tarde, o jogo Vasco x Sport. Sim, aquele mesmo de São Januário…

Lucas é um cara do bem. Simples, comedido, competente. Qualidades que refletiam a ótima escolha da direção caso o milésimo gol efetivamente se concretizasse. Num instante a sós com ele, disse que torcia muito para que o gol saísse mesmo naquele dia. Por uma questão de merecimento. Ele agradeceu sem jeito, com uma expressão de quem sabia muito bem que aquele momento, aquela possível narração, seria eternizada na TV brasileira.

 

Quis o destino que o milésimo acontece neste domingo. O jogo estava em pay-per-view, portanto a solução pra quem quisesse acompanhar era se ligar no bom e velho rádio. Uma vez sintonizado o 780 AM, adivinhe quem estava no ar, comandando a transmissão da Rádio Manchete? O bravo João Guilherme.

João, sempre que a rede balança, solta um suave, ligeiro e característico “é gol”. Bordão que ganhou uma versão especialíssima na hora daquele pênalti. Quando a bola entrou, o narrador variou. Com a categoria de sempre, disse aos ouvintes: “é mil”. Simples assim.

Na mesma hora que Romário beijou a bola, todos os canais que transmitiam outros jogos entraram com a famosa ‘janelinha’, mostrando a contagiante empolgação de Lucas Pereira. Voz lá em cima, ele deu conta do recado e nos mostrou que, tal como no rádio, o gol mil teve o tratamento que merecia.

Quando adentrou a redação do SporTV, dois dias depois, Lucas foi aplaudido por todos os profissionais que ali estavam. E por muito tempo. Uma bela e justíssima homenagem ao homem que fez a única narração em TV para o milésimo gol de Romário. E quando encontrar João, farei questão de cumprimentá-lo por ter aproveitado muito bem a oportunidade de narrar estes dois grandes momentos.

Assim como Jadel e Romário, neste vinte de maio Lucas e João também contribuíram para reescrever a história do esporte brasileiro.

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3 comentários

  1. E ainda mais uma sobre esse dia. Eu consegui correr os 100 metros bêbado em linha reta em menos de 1 minuto…

    Abraço

    PS: Não poderiamos ter nascido em mês melhor…

  2. Lendo esses últimos posts, por um momento eu achei que você tinha sido transferido do Sportv para o Video Show !!!

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