Uma noite em Suzuka

Logo nos primeiros dias do Fórmula Grün (ainda sob o nome de Grün Blig), prometi que republicaria algumas crônicas do blog original, de 2002. Mas a que vem agora não pode ser jogada aqui sem algumas explicações.

Este texto foi escrito após o GP dos Estados Unidos de Fórmula 1 daquele ano, no qual Michael Schumacher aparentemente devolveu, na linha de chegada, um favor prestado por Rubens Barrichello na corrida austríaca, alguns meses antes. Uma chegada milimétrica, onze milésimos de segundo a favor do brasileiro, que durante todo o ano teve que ceder carros, acertos e posições ao alemão.

Chegada do GP dos Estados Unidos de F-1 2009 / Foto: Agência SuttonNa época, Schumacher foi ainda mais criticado por essa postura da Ferrari, que também não foi poupada das reclamações de fãs do mundo inteiro. Os brasileiros, especialmente, estavam revoltados com o contrato assinado por Barrichello, que o colocava na condição de capacho absoluto do alemão. Os alvos favoritos dos fãs eram um francês baixinho, Jean Todt, diretor esportivo da equipe, e Ross Brawn, inglês com cara de poucos amigos responsável pelas estratégias do time. O “primeiro-irmão” Ralf Schumacher, que mesmo a bordo de uma Williams aprontava das suas, também aparecia como um vilão.

A crônica abaixo, que de certa forma reproduz esta atmosfera, se passa num quarto de hotel em Suzuka, Japão. Mais precisamente numa tarde de sexta-feira, antevéspera da última etapa do campeonato daquele ano. Além de encerrar a temporada, o GP do Japão era a corrida imedatamente posterior à prova dos Estados Unidos, onde o tal favor tinha sido retribuído.

Aproveitando que a Rede Globo exibiu nesta segunda o filme Cidade de Deus, tenho o enorme prazer de apresentar-lhes novamente esta crônica. Boa leitura!

UMA NOITE EM SUZUKA
[texto escrito originalmente em 29 de setembro de 2002]

Toca a campainha. Bem à vontade, ele caminha pelo quarto do Grand Hotel Suzuka. Veste apenas um robe estampado com grafismos orientais, e abre a porta com certa preguiça, mas esboçando um sorriso.

_Ralf, Bernie… prazer imenso ver vocês aqui. Vocês chegaram cedo, nem me vesti ainda.

Seu irmão não parece ter muitos motivos para sorrir.

_Está é tarde, Michael. Você deve estar tendo problemas com o fuso horário aqui do Japão.

_Que nada, mano. Que horas são?

_Já passam das oito.

_Oh, meu Deus. Perdi a noção da hora.

O homem de cabelos brancos tira os óculos, respira fundo e o encara nos olhos.

_Percebemos pela sua ausência na coletiva. Os jornalistas queriam saber por que você foi tão lento nos treinos livres de hoje.

_Ora, Bernie, não seja duro. Amanhã é que é para valer, tudo vai mudar. Não esqueça que eu guio uma Ferrari. A equipe está do meu lado.

_E além do mais você não tem um companheiro como o meu. É inacreditável o que aquele colombiano está fazendo comigo na Williams. E o Frank finge que nada está acontecendo. – resigna-se o caçula, abrindo uma fresta na cortina com a ponta dos dedos enquanto inclina o pescoço na direção da janela. – Ajudo no que é possível, vocês entendem.

_Estou com fome. Vou pedir algo para nós – diz Michael, sendo logo interrompido por batidas leves na porta, cadenciadas numa espécie de código – Só um instante… devem ser eles.

As duas figuras com alturas distintas dão uma olhada no corredor antes de entrar.

_Ross, Todt… Sejam bem-vindos. O Chandon está no frigobar esperando por vocês.

O inglês, do alto de seu metro e noventa, sequer dá boa noite.

_Que cara é essa? Acordou agora?

_Sem essa, Ross. Você sabe que eu não durmo à tarde. Entre, vamos.

Nem chegam a se sentar e o pequeno francês faz biquinho para falar grosso.

_Não entendi sua insistência. Nós cinco aqui, numa sexta-feira à noite, para celebrar o quê? Por favor, Michael, você conhece as regras. A classificação é amanhã, temos uma corrida a vencer neste domingo, não se esqueça. Espero que você seja breve.

_Relaxe, Todt. Tivemos uma temporada gloriosa. Deveríamos mesmo comemorar. Mas os chamei aqui por outra razão.

Dá um passo apenas e coloca-se à frente do irmão. Fecha a cara para os demais, distribuindo as taças de cristal com a destreza de um crupier.

_Ok, serei direto. É a última prova da temporada, e não concordo com essa política de ‘liberdade’ durante a corrida. Vocês sabem que eu não tolero igualdade de condições. Rubinho foi o mais rápido hoje, deve estar cheio de intenções para domingo.

Alguns segundos de um silêncio interminável, até que uma voz quebra o gelo.

_Acho que só os japoneses gostaram do desempenho dele hoje. Aliás, que mania, gostar de brasileiros. Por que não torcem para o Sato?

_Não fuja do assunto, Bernie. Falamos de números. A corrida será minha, já está combinado desde a nossa reunião na Austrália. Além disso, aquela chegada em Indianápolis ainda está atravessada aqui.

O dedo em posição horizontal na altura da garganta é fitado pelo baixinho, que coloca sua taça vazia na mesinha de centro. A resposta vem ríspida, em um carregado sotaque francês.

_Fizemos nossa parte para a mídia. Vocês estavam lado a lado, e ele acabou acelerando mais do que deveria nos últimos metros. A telemetria pegou. Deve ter sido mesmo sem querer. Você pegou a parte suja quando abriu, poderia ter pensado em dar o outro lado da pista para ele.

_Está me chamando de burro?

_Calma, mano.

_É esse o problema. Por outras três vezes nesse ano eu tive que manter a calma. Não agüento mais. Que o Rubinho não nos ouça, mas por pouco eu quase acelerei também. Ia ser lado a lado do mesmo jeito, mas com um centésimo de vantagem para mim, não para ele. Depois ainda livrei a cara de vocês, dizendo que essa palhaçada foi idéia minha. Que papelão! E o dissimulado disse que estava ‘surpreso com a minha atitude’.

Um estrondo na porta assusta os presentes. O som parece ser de tiros, mas é alguém batendo violentamente na madeira de lei.

_Quem é? – grita ele de longe, ainda nervoso com a discussão.

Nenhuma resposta. Mais batidas. Pé ante pé, caminha para verificar no olho mágico quem o estaria incomodando. Confuso com o que vê, abre uma fresta e recebe um tranco com a entrada na marra de seu inesperado visitante.

_Qual é, Rubinho, como é que tu invade meu apê assim?

Zé Pequeno, de Cidade de Deus / Foto: divulgação O2 Filmes_Rubinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra! E quem disse que o apê é teu?

_Como é que é? Zé o quê?

_É isso mesmo que você entendeu. Zé Pequeno, sacou?

O caçula intercede.

_O que você quer aqui?

_Cala a boca, pirralho, se não pode ser o primeiro a rodar.

Assustado, o sisudo inglês levanta-se e fala alto:

_O que é isso, garoto? Abaixa esse negócio. Pode machucar alguém.

Ele o ignora solenemente. Olha ensandecido nas córneas do companheiro de equipe e caminha decidido.

_Já cansei dessa porra. Agora vai ser do meu jeito.

Um pequeno movimento do baixinho francês é imediatamente repelido por uma mudança de direção do cano da arma. Ele levanta as mãos. Uma intervenção não seria uma boa idéia.

_Vamos resolver isso como amigos! – grita nervoso o alemão. – Espere! Não faça isso!!! Rubinhôôôôôôôô!!!!

São suas últimas palavras antes do tiro. Um estampido seguido de uma pressão forte nos sentidos lhe tiram a visão, a audição e todo o resto. Parece ter sido jogado contra um túnel de vento, sugado pelas costas com as veias abafadas por um calor desumano.

Cai abruptamente sobre um paredão de pedras e expulsa de dentro de si um som indecifrável e desesperador. Agora ele já pode ouvir algo. As palavras ganham ordem e ele abre os olhos.

_Michael… Michael!!! Calma, amor, eu estou aqui! Michael! Calma!

Sobre a cama, embolado em lençóis, ele sua e treme, mãos fechadas, boca aberta buscando ar.

_O que houve, Corina?

_Deve ser esse sushi que te fez mal. Você comeu demais e adormeceu em seguida, deve ter tido outro pesadelo. Eu já te disse para não comer assim na véspera das corridas. Fique aqui quietinho. Vou buscar um copo d’água com açúcar.

Antes de chegar ao frigobar, ela vira-se novamente e comenta, despretensiosa.

_Ai, ai… você nunca dorme bem quando não marca a pole, não é? Tira essa idéia da cabeça, Mi. É só um número. Ah, antes que eu me esqueça. O Rubens ligou quando você estava dormindo. Disse que tem que te levar ao cinema de qualquer maneira.

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