Entre o coração e a raquete

Ele perdeu. Nesta terça-feira o gênio, o mito, o fora-de-série Roger Federer foi derrotado na primeira rodada do Masters Series de Cincinati pelo novato inglês Andy Murray. Que não é tão novato assim, diga-se de passagem. Esse é um termo ‘frase-feita’ da imprensa para rotular um jovem tenista, que no caso tem a mesma idade de Rafael Nadal, o espanhol que venceu neste ano o Torneio de Roland Garros, só para citar um.

Murray já tinha mostrado suas qualidades uma semana antes, quando atropelou alguns favoritos e chegou à semifinal do Masters Series de Toronto. Ainda meio verde, amarelando nos set points, mas mostrando sua indiscutível qualidade. Ao derrotar o suíço Roger Federer, com folga o número um do mundo, o inglês sentou-se, olhou para o nada e chorou. Parecia não acreditar no que tinha acabado de fazer.

Além de ser o melhor da atualidade, Federer já é considerado um dos melhores da história. Em seus recém-completados 25 anos, conquistou 11 torneios de Masters Series e oito Grand Slams. Se jogar em alto nível até os 30, é bem provável que bata as invejáveis marcas de Andre Agassi, que ganhou 17 vezes os Masters Series e de Pete Sampras, ‘grameiro’ como ele, que detém nada menos que 14 Grand Slams.

Em quadra, Federer é técnico, frio, preciso. Por isso mesmo, arrasador. Mas, dependendo do ponto de vista, as mesmas qualidades que o fazem genial podem ser usadas de forma contrária. Seu jogo técnico, frio e preciso o transformam em um atleta contido, de jogo frouxo, que deixa suas partidas com cara de repartição pública. Como se ele ficasse o dia todo sem fazer nada, circulando pelo escritório, para trabalhar das três às cinco da tarde. Trabalho feito, bate o cartão e vai para casa.

A explicação para isso? Não tenho. Mas confesso ser tomado por uma certa revolta a cada jogo dele que assisto. Percebo uma indolência inata, um arrastar de correntes que está presente em seu olhar. Um ‘jogar para o gasto’, que torna algumas partidas intermináveis, não exatamente por sua duração. Do lado de cá da telinha, nos perguntamos: por que ele não joga tudo o que sabe?

A final do Masters Series de Toronto, disputada dois dias antes da derrota para Murray, foi um grande exemplo disso. O francês Richard Gasquet, no meu ver o melhor jogador do torneio até então, fez um grande primeiro set e fechou em 6×2. Até me deu a esperança de que Federer seria derrotado com estilo, mas não foi isso que aconteceu. Um segundo set mais disputado e um terceiro arrasador levaram o suíço ao título. Com uma facilidade irritante.

Antes de perder para Murray, suas últimas cinco derrotas haviam acontecido em circunstâncias muito semelhantes: finais em quadras de saibro contra o número dois do mundo, Rafael Nadal. O espanhol é, por sinal, seu maior carrasco. Federer tem quase o dobro de pontos no ranking da ATP, mas no confronto direto quem leva vantagem é Nadal. Freguês de carteirinha.

Os números podem mostrar que a estratégia é um bom caminho para se conquistar títulos e subir nas estatísticas. Mas a emoção ainda é o principal ingrediente do esporte, e isso não pode ser posto de lado, de forma alguma. Ganhando ou perdendo, sou mais a garra de Nadal. O ser humano que entra em quadra para jogar, que mexe todos os músculos, que aplica cada gota de sangue por cada ponto disputado. Alma latina, perfil lutador, mostrando que a vibração é uma virtude, algo que deixa qualquer esporte mais popular. E indiscutivelmente mais bonito.

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1 comentário

  1. Concordo plenamente, sou fã de carteirinha do Nadal…vc falou tudo, garra, sangue na veia etc e tal. Não vejo a hora de uma vitória do Nadal sobre o Federer em quadras rápidas!
    Bjo

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