Aventuras em 13hp*

Grün na Granja Viana, agosto de 2005 / Foto: Alexandre Moriya, Kart RidersNovembro de 2001. Convidado por uma equipe de cariocas para fotografar suas atividades durante as 500 Milhas de Kart da Granja Viana, nem pensei duas vezes. Coloquei o velho equipamento na mochila e saí, sexta-feira à noite, direto para a rodoviária. Um banho e um miojo em casa antes, e muita ansiedade durante algumas horas de viagem, nas quais, como de costume, não dormi.

Nove da manhã do dia seguinte, e lá estava eu despretensiosamente caminhando nos boxes do melhor kartódromo do Brasil, vendo um dia de trabalho começar em ritmo lento, com mecânicos ajustando karts carenados e um ou outro piloto chegando. Máquina em punho, cliquei aqui e ali, e entre as belas fotos que fiz da equipe que me contratara, ia esticando o pescoço em busca dos famosos, os carinhas que correram naquela pista anos antes, e que agora estavam em categorias de nível internacional, como a Fórmula 3000, a Indy, a Fórmula 1.

Quatro rolos de filmes e algumas horas depois, já tinha eternizado nos negativos gente como Chico Serra, Ricardo Zonta, Rubens Barrichello, Zeca e Felipe Giaffone, Tony Kanaan, Antônio Pizzonia, entre outros. Inclusive alguns adolescentes, kartistas abusados que hoje batalham na Europa às portas da F-1.

À medida que diminuía a luz do dia, aumentava o burburinho na pista. Minutos antes da classificação, diante das feras que formariam o grid para a corrida de kart mais famosa do Brasil, eu me peguei na mais terrível das situações para alguém que se postulava a fotógrafo: não tinha levado flash! Isso significava, simplesmente, que minha labuta terminava ali, junto com o sol que se punha.

Decepções à parte, naquele exato instante relaxei. Guardei a máquina, as lentes e meus parcos conhecimentos de fotografia para me tornar um privilegiado espectador daquela Disneylândia da velocidade. Um lugar onde um aficionado como eu podia circular livremente, devidamente credenciado, entre alguns dos principais nomes do automobilismo mundial. Gente que, assim como eu, estava ali para se divertir depois de um ano inteiro de trabalho. A diferença é que o escritório deles era, digamos, um pouco mais arisco que o meu.

A largada aconteceu à meia-noite, e depois de doze horas de prova, com variáveis inacreditáveis, como um chuvisco safado às 4 da manhã, o trio Barrichello-Kanaan-Haberfeld cruzou a linha de chegada em primeiro lugar. Depois de um ano pra esquecer, Rubinho celebrava sua vitória com gosto, mas acho que a curtição, no fim das contas, valia até mais que o troféu. Como o pódio aconteceu sob o sol de meio-dia, pude registrar a festa do champagne. Ali pensei comigo que deveria mesmo ser uma ótima terapia acelerar um kart sem ter que provar nada para ninguém. No asfalto da Granja, ele estava correndo para si mesmo.

Minha equipe? Deixa pra lá. Um problema de motor na quarta volta, uma noite perdida e um 42º lugar no geral. Pelo menos completou a corrida, coisa que nem todos os 68 inscritos conseguiram.

* * *

O primeiro contato com a melhor pista do Brasil, Kart Riders 2005
O primeiro contato com a melhor pista do Brasil, Kart Riders 2005

Agosto de 2005. Depois de um ano correndo regularmente de kart indoor, finalmente tinha chegado a hora. Eu, que aos 29 anos já estava realizando um sonho antigo só pelo fato de disputar um campeonato amador, me vi conseguindo mais do que tinha imaginado nos meus dias de criança. Afinal, a sétima etapa da temporada do grupo Kart Riders estava marcada para o Kartódromo Internacional da Granja Viana, aquele mesmo que, tempos atrás, eu visitara como jornalista.

No ônibus fretado, muita bagunça dos amigos e nenhum minuto de sono, pra variar. Quieto no meu canto, via o amanhecer de São Paulo enquanto pensava naquilo tudo. Nada de motores teco-teco de 5,5 ou 6,5hp, nem pistas improvisadas em estacionamentos de shoppings. A mente, relaxada, podia entender perfeitamente que era a hora daquele mesmo fã de corridas experimentar o asfalto mais famoso entre os kartistas do Brasil, e o que era melhor: em um kart de 13hp.

Uma volta a pé pela pista, alguns comentários entre os pilotos, e logo percebi que não estávamos sozinhos. Um dos funcionários quebrava o silêncio do lugar testando o equipamento de aluguel que usaríamos mais tarde, cruzando o circuito a uma velocidade impressionante. Bem, pelo menos era impressionante para mim, já que eu ainda me preparava psicologicamente para conduzir um motor de 13 cavalos, fato que aconteceria pela primeira vez.

Com capricho, vesti meu macacão, meu próprio macacão, e senti nesse gesto que começava a dar forma àquele dia especial. Não importava o que viria a acontecer em termos de resultado. Para aquele sujeito alto e magro com sorriso infantil que encontrei ao olhar no minúsculo espelho do vestiário, o sonho tinha suas próprias cores, seu próprio valor. Um sonho que corria a alguns quilômetros por hora.

Nos treinos e na corrida, senti o kart como uma extensão de mim. Mesmo tratando algumas zebras com carinho similar ao de quem arromba uma porta, posso dizer que me entendi com a pista logo nas primeiras voltas. O motor, que maravilha, respondia a cada retomada. Podia usar o freio sem risco de patinar depois, e ia, aos poucos, encontrando meu ritmo, encontrando pontos de ultrapassagem. Comemorava intimamente cada uma delas e aprendia algumas curvas depois com os erros idiotas que me tiravam novamente as posições conquistadas com tanto esforço. Sem problemas…

No fim, coloco na balança mais acertos do que erros, e contabilizo com as duas mãos as ultrapassagens que fiz. Larguei em sétimo, cheguei em sétimo, mas a aparente inércia dos números não mostra realmente o que aconteceu naquela pista. Acho que nem os competidores do meu pelotão, que se alternaram de maneira incrível entre o quarto e o oitavo lugares, sabem quantas vezes trocaram de lugar.

Só sabem que, ao receber a bandeira quadriculada, comemoraram muito. Sem pensar em mais nada. Só no prazer indescritível de guiar um kart de 13hp na melhor pista do país, dividindo retas, curvas, subidas e descidas com os amigos. Gente que, assim como eu, estava ali correndo para si própria, sem ter que provar nada para ninguém.

[*Texto escrito originalmente em 25 de agosto de 2005, e publicado anteriormente nos sites GP Total e Planet Kart. Clique nos links para conferir / Atualização: o link do Planet Kart não existe mais.]

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