Especial Monza: a pista velha

Quando alguém diz que Monza é um templo da velocidade, geralmente a primeira reação é achar esta expressão um pouco ‘lugar comum’. Mas, de frase feita, ela não tem nada. Basta você pisar naquele lugar, com ou sem o rugido dos carros ao fundo, para provar o seu grau de devoção pelo automobilismo e por tudo que se relaciona à sua história. Incluindo, evidentemente, as lendas e os mitos associados à velocidade e ao mundo das corridas.

A linha do tempo tem sido generosa com esta pista ao longo das décadas. No século XX (e também em um pouquinho do século XXI), ela foi palco de grandes batalhas, sediou eventos históricos e reuniu o melhor material que havia em cada época – tanto em termos de tecnologia quanto no aspecto humano. Como disse Augusto Farfus em uma entrevista concedida à equipe do SPORTV: “este lugar é mágico; os grandes venceram aqui”.

Grandes, mesmo. Só na Fórmula 1, a lista engloba nomes como Farina, Ascari, Fangio, Hill, Clark, Stewart, Andretti, Lauda, Prost, Alonso, entre outros. Os brasileiros fizeram história também, com Fittipaldi vencendo ali seu primeiro Mundial, e depois com as quatro vitórias de Piquet, as duas de Senna e, mais recentemente, as duas de Barrichello.

Mas poucos tiveram o privilégio (e a coragem) de experimentar Monza na sua configuração mais desafiadora, que contava com a parte oval e as curvas inclinadas. O circuito antigo – ‘la pista vecchia’, como dizia nosso motorista – é um museu de sentimentos a céu aberto, discreta e serenamente posicionado ao lado da pista principal. As longas retas de concreto estão abertas, hoje em dia, aos que caminham e andam de bicicleta, apenas. Gente que passeia sem qualquer preocupação pelo Parque de Monza, que vem a ser uma comunhão de natureza e história que circunda e emoldura a pista com muito verde e muita paz.

As curvas inclinadas são um capítulo à parte, e merecem um post dedicado só a elas. E que fique claro: quem pensa que o barato do traçado antigo se resume às curvas, se engana. Andar a pé pelos retões de cimento é uma curtição, por diversos motivos, um mais particular que o outro. Numa hora dessas, cada pessoa deve ter sua reação. E a minha foi um misto de paz interior com um exercício de imaginação, envolvendo aqueles carros de pneus finos guiados por pilotos corajosos, que só costumamos encontrar em fotografias em preto e branco. Homens comparados a heróis, talvez pelo fato de que aceleravam em busca de algo além da fama e dos prêmios. Em dado momento, aquele chão me confidenciou – com a sutileza das folhas amareladas do outono que não paravam de cair – que eles buscavam, na verdade, a eternidade.

Imagino que em poucos lugares do mundo se respira história daquele jeito. É realmente impressionante como a pista – leia-se o conjunto do misto com o oval – guarda os ecos de outras eras sem fazer muito esforço. Ao redor da base de cimento que recebia os ases de priscas eras, ainda estão os guard-rails originais, enferrujadésimos, sustentados por tocos de madeira igualmente castigados pelo tempo; entre as arquibancadas de metal que todos os anos recebem os tiffosi, continuam firmes algumas pioneiras, de alvenaria; os túneis de trânsito interno que passam por baixo das retas parecem originais, estreitos e bem cuidados; por fim, as árvores que margeiam a pista (em grande parte, centenárias), que dão forma e vida ao encantador Parco di Monza, são o retrato da imponência.

E tudo isso, de uma só vez, contribui de forma muito natural para que o visitante seja contagiado por um estado de espírito que, me desculpem, é simplesmente inexplicável. Ainda mais quando o ‘bg’ é formado por dezenas de motores berrando em altíssima velocidade, logo ali ao lado. Não foi à toa que eu iniciei minha coluna publicada naquela semana no blog Voando Baixo com a seguinte frase: “visitar um templo da velocidade é um privilégio que deve ser saboreado segundo a segundo entre aqueles que amam o esporte a motor”.

Eu saboreei, tenham certeza. E, a cada dia, agradeço a Deus pela oportunidade. Como agradeci naqueles quatro dias em que provei minha devoção numa das maiores catedrais do mundo do automobilismo.

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